Escalação de todos os santos

Aqui é Galo! / 31/10/2015 - 07h34

Geralmente são três. Mas resolvi exagerar: mil, divididos em quatro vezes mensais de 250. Mesmo em tempos de crise, o melhor não é barganhar com São Longuinho e ser generoso na quantidade de pulinhos. Nada de saltos tímidos, receosos de que alguém possa ver e saber o nome do santo.

E se perguntarem o que foi perdido, lembre-se que os pontos não podem ser recuperados – a não ser que se descubra o santo protetor do Fluminense e encontre devotos no Superior Tribunal de Justiça Desportiva. A devolução, no caso, é do brio, da raça e da sorte que pautaram o Galo nos últimos anos.

Achado não é roubado, mas a verdade é que o Corinthians encontrou a regularidade no segundo turno, depois de praticamente pegar no tranco, aproveitando a ladeira atleticana e empurrado por árbitros caridosos, que confundiram Corinthians com Coríntios, evidenciando um amor genuíno ao time paulista.

Lembro que, na época de criança, algum familiar me botou medo, dizendo que pedir a São Longuinho era coisa do diabo. Eu dava meus pulinhos, com um bocado de culpa, e quem sempre encontrava era a minha mãe, após arrumar o meu quarto de brinquedos. À noite, temia uma cobrança pessoal e assombrosa.

Descobri mais tarde que Longuinho não foi totalmente santo. Era um centurião romano, daqueles que guardavam o lugar das crucificações. Ele se converteu depois de cair o sangue de Jesus em seus olhos, sendo o primeiro a acreditar, segundo os católicos, na divindade de seu prisioneiro.

A escolha por São Longuinho talvez venha daí, dessa crença cega que nos remete ao “Eu acredito!” alvinegro. Enquanto a Matemática permitir, ainda há esperança no título, na expectativa de um novo milagre que leve a equipe a superar tudo e todos, vencendo os compromissos faltantes e vendo o Timão tropeçar na reta final.

Sou vizinho de São Judas Tadeu, quer dizer, da Basílica no bairro da Graça. É o santo dos desesperados e das causas impossíveis e muitos atleticanos aproveitaram o dia 28 para deixarem seu pedido no santuário. Mas como o jogo acontece no primeiro dia de novembro, o Dia de Todos os Santos, apelei para a concorrência também.

Pedi para Santa Rita de Cássia, auxiliadora da última hora, e Santo Expedito, advogado dos aflitos. E até os elfos foram lembrados, já que amanhã também é comemorado o Samhain, festa pagã celta que pode estar na origem da mudança de data do Dia de Todos os Santos, antes celebrado em maio.

Reconhecidos por seus poderes de cura e fertilidade, os elfos podem ser vistos pelos humanos durante o Samhain, perdendo momentaneamente o poder de invisibilidade. Momento ideal para pedir a eles que melhorem a pontaria do ataque do Galo e não permitam mais as descidas surpresa dos inimigos.

Mas o elfo só atenderá o seu pedido se não deixá-lo fugir. Para isso é preciso, segundo a lenda, espalhar folhas de escambroeiro ou espinheiro-cerval em um círculo e dançar sob a lua cheia, dizendo em alto e bom som Halt and grant my boon! (“Pare e me dê a bênção!”, na língua nórdica). Não por acaso, acabo de olhar na folhinha, estamos na lua cheia.

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