Eu e a Van, no Mineirão

Aqui é Galo! / 15/11/2019 - 08h32
torcida

 

 

A Vanessa voltou.

Foram quase seis anos de idas e vindas até que resolvemos retomar o casamento de onde parou – quando ela me deixou na manhã de 24 de julho de 2013, após fazer a pergunta que jamais esquecerei: “Escolha: eu ou o Atlético?”.

Estava com o ingresso na mão e seria testemunha da conquista atleticana naquela noite mágica se não tivesse ido para o aeroporto atrás da Vanessa. Cenas que valeriam um filme, tenho certeza.

Perdi o jogo da minha vida, mas hoje eu e o Galo estamos em situações opostas.

Reconquistei o posto de marido, passei a dar mais valor a Van-Van depois de achar que estava tudo tão certo e fácil como uma disputa de Copa Sul-Americana e entrei numa clínica de desintoxicação de futebol. Sim, futebol nos intoxica a ponto de perdermos o respeito pelo outro, em ver no torcedor adversário um inimigo a ser abatido, mesmo que não nos tenha feito nada.

Quando a Vanessa me fez aquela fatídica pergunta, eu a metralhei com os olhos, no melhor estilo Tardelli, achando que ela estava em outro planeta, sem entender que o que estava acontecendo nesta cidade era a coisa que tinha esperado por toda uma vida.

Fui para o Rio de Janeiro com a roupa do corpo, atleticano dos pés à cabeça, pedi mil desculpas e fiz juras de amor. Só no aeroporto, no dia seguinte, tive o sabor de ver o Atlético campeão, nos melhores momentos. E que momento foi aquele em 2013!

Tentação, claro, existe.

Rafa, o irmão dela, conseguiu um par de ingresso para o clássico de domingo passado e me deu. Olhei para ele, raivoso, e meu cunhado largou uma gargalhada. “É para você e para a Vanessa. Quem sabe, se você a tivesse levado naquele dia, ela não teria ido?”, observou, com ares professorais.

Sim, não a levei porque a Van não gostava de futebol, sempre tampando os ouvidos ao menor sinal de palavrão.

Ela chegou naquela hora e, para mostrar que eu estava com a razão, lasquei a pergunta: “Seu irmão está nos dando esses ingressos para o jogo. Vamos?”.
“Vamos”, respondeu, pegando-me de surpresa.

No caminho para o Mineirão, fiz todo o relato, para que ela não deixasse de entender nada. ”Foi um ano para se esquecer. Para os dois”, arrematei.

Percebi que ela estava gostando da festa, da Massa pulando e dos cânticos. Ao seu lado, tenho que dizer, foi mais gostoso ainda fazer parte deste ritual, como se estivesse acompanhando o “batizado” dela como atleticana.

O jogo não foi lá grandes coisas, mas vê-la segurando a minha mão a cada instante de perigo valeu a tarde. Enfim, acho que ela compreendeu que meu amor pelo Galo não ocupava o mesmo espaço em relação àquilo que eu sentia por ela.

De repente, tudo virou do avesso. Cadeiras voando. Tiros de borracha. Gás. Pânico geral. Vanessa chorava, àquela altura não sabia se era por causa do gás ou de medo. Cenas lamentáveis de racismo nos entristeceu ainda mais. Justo a gente, preto e branco, tudo alegremente misturado numa história vitoriosa.

“Van?!...”, não sabia o que dizer, já do lado de fora.

Ela me beijou e tampou os meus lábios.

Certas coisas não precisam ser ditas, mas esquecidas. Esses atos não me representam. Não nos representam.

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