Guerreiros e Libertadores no caminho do Atlético

Aqui é Galo! / 26/12/2015 - 07h20

O grupo não é o da morte, certamente, mas tem lá seus fantasmas. A impressão é que o Atlético entrará em campo, na primeira fase da Libertadores, contra times que, se não representam grande ameaça em matéria de futebol, carregam as raízes da riqueza cultural da América do Sul, que vai dos povos incas do Peru aos araucanos chilenos, passando pelos quitus equatorianos e pelos índios guaranis originários do Paraguai.

Se a História impõe algum peso, a equipe criada no coreto do Parque Municipal, pouco tempo depois da fundação de uma capital planejada, já começa em desvantagem. Alguns dos nossos rivais estão simbolizados por grupos que travaram lutas sangrentas por seus territórios, como o Melgar. Em sua quarta participação na Libertadores, o time centenário está em total consonância com o título da competição.

Libertadores é uma referência aos heróis que contribuíram para a independência dos países sul-americanos. E Mariano Lorenzo Melgar foi um deles. O poeta, músico e advogado é autor da Marcha Patriótica, que antecede o hino nacional do Peru em seus versos emocionantes sobre “não se encontrar um homem sozinho que não empunhe sua afiada espada (…) contra o tirânico espanhol”.

O clube da pequena Arequipa também foi criado num parque (o Duhamel), já com o pensamento de homenagear aquele que é “um exemplo de valor, inteligência genial e luta pelas boas causas do Peru”, como registra o site do Melgar. Só espero que não confundam o país colonizador com o goleiro Espanhol, batizado Omero Pieri, que defendeu a meta atleticana de 1939 a 1942 e cuja origem era, na verdade, italiana.

Com tanto ufanismo em jogo, nossa torcida é para que o adversário não se torne, em bom português, nenhum inconveniente, como foi o Atlas em 2015. Lá em Portugal, por sinal, a palavra melgar está no dicionário e significa causar incômodo ou aborrecimento de forma constante. Também pode ser um daqueles insetos irritantes que picam. Deveria ter caído no grupo do Grêmio, que conta com um “mosqueteiro” como mascote.

A maneira de desinsetizar esse confronto é destacar que a ideia de uma vitória peruana é tão impossível quanto os amores cantados em yaraví, típica música da região que tem Melgar com expoente. Suas estrofes falam mais de paixões do passado. Como o Clube da Esquina, nosso principal movimento musical, também tem um quê nostálgico, opto pelo ritmo avassalador do Sepultura.

Os araucanos, liderados pelo cacique Colo-Colo, que deu nome ao time chileno, foram eternizados como bravos resistentes, enfrentando os europeus por longos anos. Líder de seis mil guerreiros, Colo-Colo era conhecido por suas acertadas estratégias de guerra. O hino do clube se inspira no herói, destacando “o grande araucano, que vai à luta sem jamais descansar”.

Mais perigosos são os guaranis, inspiradores do clube paraguaio, outro rival a ter um índio desenhado no escudo. O termo, traduzido, já diz muito: guerreiros. O que ficou provado ao eliminarem o Corinthians e chegarem às semifinais da Libertadores. Como bons plantadores de batata que eram, a solução será mandá-los de volta às suas atividades originais. De preferência, com um futebol mais vistoso que aquele apresentado nesse ano.

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Comentários