Harmonizando o Galo

Aqui é Galo! / 12/12/2015 - 08h09

Você tem que conhecer a Patrícia. Quantas vezes eu ouvi essa frase de meu amigo uruguaio Ortega. Na época, casado, não dava ouvidos à insistência dele, que não parava de falar de seus atributos: loira, cinturinha acentuada, cheirosa e estilo nobre. Garantiu que eu ia gostar logo de cara, que eu não iria querer saber de outra. Essas coisas de amigo exagerado que não quer ver a gente amuado pelos cantos.

Sempre tive dificuldades de me relacionar com as loiras, geralmente sofisticadas demais. “Patricia harmoniza com tudo e todos”, alardeou Ortega, com aquele espanhol misturado ao português, já me convencendo de ser apresentado à uruguaia, num encontro de amigos a tarde. Na mesa do bar, lá estava ela, gelada e pronta para nós... Patricia, na verdade, é uma conhecida cerveja dos hermanos.

Não me fiz de rogado e tomei muita Patricia, aliviado por não ter compartilhado com ninguém do meu engano. Em outras mesas não vi apenas Patricias, mas também Mastra, Zillertal, Norteña... Na América do Sul, descobri, não existem somente os vinhos chilenos. E parece que o futebol brasileiro e o Atlético descobriram a mesma coisa. Não a bebida, claro. Mas vizinhos talentosos com a bola e também baratos.

O técnico Diego Aguirre veio com muitos planos e por menos da metade do valor pedido por Muricy Ramalho, de acordo com o noticiário. E tenho para mim que logo um reforço surgirá daquelas bandas, da região do Rio da Plata. Não por acaso, Lucas Pratto nasceu em La Prata, comprovando a sua boa procedência durante a temporada, como o maior artilheiro do Galo no Campeonato Brasileiro, com 13 gols.

Outro argentino do grupo atleticano, Dátolo é de Carlos Spergazzi, que não é banhado pelo Plata. Com marca de refrigerante no nome (Jesus), o armador, pelo menos, atuou pelo Boca Juniors, patrocinado, entre 1996 e 2001, pela cervejaria Quilmes, a loira mais consumida na Argentina. O slogan da marca - “o sabor do encontro” - cai como luva nesse momento em que o Brasil parece ter encontrado sua mina de ouro entre os sul-americanos.

Essa importação não é de agora, tanto que a AmBev possui 91,18% do pacote acionário das ações da Quilmes, além de ter também a Patricia em suas mãos, presente por aqui desde 2008. Aliás, segundo alguns números coletados na internet, mais de 80% do mercado argentino tem o controle brasileiro, justificado pelo aumento do consumo de brejas nos últimos 20 anos, que saltou de 17 para 41 litros anuais per capita.

Não sei se a cevada e o lúpulo têm corroborado para esse futebol vistoso dos hermanos, beneficiando, de tabela, os times brasileiros. De toda forma, já estou realizando as minhas orações para Ninkasi, a deusa da cerveja dos sumérios para que, em 2016, o Atlético estabeleça o Código de Hamurabi, condenando à morte quem não respeita os direitos e deveres dos cervejeiros na busca do bicampeonato da Libertadores.

Se hoje a palavra da moda é “harmonizar”, espero que o Galo consiga conciliar bem o teor e corpo das cervejas de fora com as nossas brejas artesanais, também famosas. Aceito de bom grado as Patricias e as Stellas, menos as Pamelas, cerveja colombiana que, na propaganda, diz ter personalidade e romper os limites estabelecidos, virtudes que não vimos em Cardenas, vítima do Código de Hamurabi.

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