Não se fala de outra coisa

Aqui é Galo! / 13/06/2019 - 08h00
alerrandro

 

 

Desculpe, São Paulo. Em outros tempos, o confronto desta noite era para ser celebrado como um grande clássico que é, símbolo de embates memoráveis como a final do Campeonato Brasileiro de 1977, quando o Atlético foi vice-campeão invicto, só perdendo o título na cobrança de penalidades, e os quatro jogos da Copa Libertadores de 2013 que cimentaram o caminho em direção à inédita taça.

 
Mas não há nada que faça o atleticano deixar de pensar no futuro, mais precisamente nos dias 10 e 17 de julho. Apesar de ainda demorar quase um mês para vivenciamos o clássico mineiro nas quartas-de-final da Copa do Brasil, o frisson desta disputa já se faz presente na boca de cada torcedor, de um lado e de outro. A Copa América parece surgir no caminho apenas para aumentar o suspense e as provocações.
 
Ao passar ao lado do hotel Ouro Minas, onde estão alguns integrantes e delegações da Copa América, ouço policiais falando de futebol, mas nada de Messi ou Suárez. O assunto era um só: Atlético versus Cruzeiro. Na porta da escola de minha filha, a mesma coisa. A garotada traçava cenários, com um ou outro reforço. Havia quem apostasse em boas surpresas como Otero, que deve retornar ao alvinegro após empréstimo.
 
Até o dia 10 de julho, velhas rusgas serão lembradas – dos vizinhos e dos jogadores, como a do próprio Otero, expulso no ano passado após cotovelada em Edilson. Seria a oportunidade para revanche? Sem falar em Thiago Neves, que falou o que devia e o que não devia após a conquista do título mineiro neste ano. O camisa 10 é vezeiro neste tipo de provocação ao rival, algo que os psicólogos tachariam de obsessão.
 
Nada no clássico foge deste apego exagerado a números, detalhes e superstições. Na última segunda-feira, por volta de 14h, provavelmente até Mark Zuckerberg, o dono do Facebook e do WhatsApp, queria saber quem eram Atlético e Cruzeiro, responsáveis por um grande tráfego de mensagens. Eu mesmo recebi dezenas delas em questão de segundos, como se houvesse uma disputa para quem chegasse primeiro.
 
Eram mensagens do meu filho, dos parentes atleticanos, dos parentes cruzeirenses, dos amigos atleticanos, dos amigos cruzeirenses... Sem falar em minha mãe, que ligou para o meu serviço informando que eu havia esquecido o celular em casa e que ele não parava de “apitar”. Pior mesmo foi ouvira série “eu não disse?!”, como se o sorteio feito pela CBF fosse apenas protocolar: todo mundo parecia saber que daria Atlético e Cruzeiro.
 
Claro, ninguém nasceu com o dom da premonição. No caso do clássico, o “eu não disse?!” tem um quê de respeito e receio. Anunciar que um dos cruzamentos teria Atlético e Cruzeiro era como, intimamente, traçar o pior cenário possível, aquele que ninguém gostaria de ver. Dizê-lo em voz alta é como querer isolá-lo, fingir para o Senhor Destino que não tem medo, esperando que ele, por este desdém antecipado, optaria por outro adversário.
 
De maneira menos sensorial, talvez apenas Rodrigo Santana não quisesse um outro clássico decisivo tão cedo. Já com o seu nome aprovado pela Massa, um jogo deste quilate pode forçar uma mudança de comando, aproveitando a parada para a Copa América, em prol de um técnico mais rodado. E, assim, a partida contra o São Paulo seria lembrada como a última de um treinador que poderia ter uma brilhante história no Galo.
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Comentários