No início, era o verbo (e também a pouca verba)

Aqui é Galo! / 05/12/2015 - 08h49

Espero o elevador chegar e passo a prestar a atenção, quase sem querer, na conversa ao meu lado, entre dois funcionários que se conheceram há pouco, de setores diferentes. A mulher, recém-contratada. O homem, um veterano que se mostra solícito, disposto a ajudá-la a se adaptar o mais rapidamente.

Os horários de trabalho não coincidem, mas eles acabam encontrando, em questão de segundos, uma maneira de lancharem juntos. Nada como o início do amor, em suas preliminares verbais, com seus códigos próprios que parecem derrubar qualquer impedimento, numa comunicação rápida e eficiente.

Foi assim com Diego Aguirre, o novo técnico do Atlético. O uruguaio e o presidente Daniel Nepomuceno tiveram uma conversa produtiva (diria até apaixonada), entendendo-se perfeitamente em relação às expectativas para 2016: o bicampeonato da Copa Libertadores, a maior prova de amor desse novo casal.

Mas antes, claro, de falarmos em casamento e procriação, o primeiro pensamento é torcer para dar certo. Técnico de futebol, vocês sabem, tem contra eles a fama de serem infiéis. Estão sempre trocando de time. Não faz muito tempo que Aguirre estava no Internacional, o adversário que nos tirou da Libertadores desse ano.

Talvez o Atlético sofra daquela síndrome de Estocolmo, apaixonando-se por seus agressores. Aconteceu com Cuca, que saiu do rival diretamente para o CT de Vespasiano em 2011, ponto de partida para uma das fases mais importantes da história do Galo. A verdade é que a mulher do vizinho é sempre mais vistosa e interessante.

Vivia dizendo para o Orlando que ele deveria levar a esposa para uns restaurantes mais refinados, no lugar do boteco do Valdir. Semanalmente a Pâmela recebia uma revista, detendo-se no anúncio de restaurantes. Dito e feito: pouco tempo depois ela trocou o boteco por um japonês. No caso, o dono da quitanda da esquina.

A única certeza é que logo após o discurso da chegada, dos elogios à estrutura e ao elenco formidável, vamos descobrir as manias. Boas e más. Minha ex só se deu conta que eu dormia atravessado na cama, ocupando todo o espaço, anos depois. Deveria ter falado que ela babava no travesseiro, mas não tive coragem.

Os uruguaios, por sinal, gostam de inventar: na década de 40, Ondino Viera foi o primeiro a adotar o esquema 4-2-4. Fez sucesso nos times cariocas e ficou à frente do Galo em 1954 e 1955. Mais tarde dirigiu a Celeste na Copa do Mundo de 1966, tornando-se um dos técnicos com maior tempo de atividade (aposentou-se nos anos 70).

Aguirre também é cotado para, futuramente, assumir o posto de comandante do selecionado do país. E tem a imaginação fértil na hora de pôr o time em campo. Contra o Atlético, no primeiro confronto da Libertadores, deixou D’Alessandro e Valdívia no banco. A dupla entrou no segundo tempo e fez toda a diferença.

A boa notícia é que uruguaios têm muita familiaridade com os mineiros. Gostam de doce de leite e falam engolindo as letras, como a gente. Para quem não sabe, aquele Sol radiante da bandeira do país vizinho é um bom presságio: segundo a lenda inca, o surgimento de um novo Sol, depois de certa instabilidade, significa o início de um ciclo de felicidade.

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