Pés enfeitiçados

Aqui é Galo! / 08/11/2019 - 14h49
marquinhos

 

 

Mais do que a vitória em si, com um time que pressionou o Goiás o tempo inteiro a partir de jogadas bem articuladas, o que mais me chamou a atenção foi ver Patric despejando uma garrafa de água ao sair do gramado para, segundo ele, tirar todas as impurezas.

Não sei qual é a religião do lateral, mas é certo que, em qualquer uma delas, quando se fala em “impureza” estão se referindo a um ambiente carregado, pesado, difícil de suportar se não é uma mandinga ou crendice para tentar quebrar tamanho mau agouro.

Minha tia Carlota é daquelas benzedeiras antigas, em que todo mundo do bairro, por mais incrédulo que seja, procura no momento de maior aperto. Ontem, coincidentemente, passei pela casa dela e não consegui segurar minha curiosidade sobre a cena vista no Mineirão.

Ela acredita que tudo é fruto de um encosto brabo que agora está sendo finalmente expulso. De fato, o que vi de jogador, nos últimos meses, “encostado” em campo, no sentido de certa indolência, não foi pouco, não. Imaginava que este belzebu se chamava salário atrasado.

“Num é dinheiro que faz a perna muvimentá!”, rechaçou tia Naná, como se um raio tivesse caído na sala. “Minino doido num é disso não!”, alertou, talvez se referindo ao Luan. “O véio tumbém não”, falou, provavelmente pensando em Léo Silva.

“Só tão pensandu em terra”, disse, já mudando de voz. Estava lendo uma matéria de jornal sobre a construção da arena e larguei o caderno no chão na mesma hora. “Terra nus dexa presu nu chão”, completou, esfregando-me uma folha que parecia de arruda.

“Água é bão para os intistino. Ajuda a limpá”, receitou. E melhor que tenha sido no Mineirão, palco das maiores tristezas nos últimos anos – do empate com o Jorge Wilstermann às derrotas para Cerro Porteño e Nacional e aos pênaltis desperdiçados diante do Colón.

Bruxo como ele é, Ronaldinho Gaúcho possivelmente já tinha entendido o caráter revigorante da água ao pedir para matar a sede naquele primeiro jogo da Libertadores de 2013, contra o São Paulo, pouco antes de dar o passe para Jô abrir a caminhada rumo ao título.

Água é também sinal de renovação. E maior prova disso se deu com os gols saídos dos pés de Marquinhos e Bruninho, na noite de quarta-feira. Não foi nada fortuito. Para quem viu o jogo, percebeu que a bola parecia procurá-los a todo instante.

O gol de Bruninho, principalmente. Num lançamento perfeito do goleiro Cleiton, a bola bateu aqui e ali, entre o meia e os zagueiros, mas sempre sorrateira, puxando-os para frente, até Bruninho, vendo um espaço, chutar sem medo.

Com Marquinhos, foi parecido. Recebeu, girou e chutou cruzado, de fora da área, confiante que a bola iria encontrar o seu caminho. O que me encheu os olhos foi essa certeza deles, evidenciada num chute determinado, enfeitiçado. Foram dois gols que quebraram a mandinga.

Apesar dos nomes no diminutivo e da pouca idade, a dupla saída da base mostrou um bolão, jogando como gente grande, apontando para um futuro promissor para um time que vivenciou um longo tempo paralisado por uma espécie de vodu.

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