Pela porta dos fundos

Aqui é Galo! / 07/11/2015 - 07h32

Assistir ao jogo de trás do gol, no nível do gramado, traz uma outra leitura, menos espetaculosa e mais física, se podemos dizer assim. Como se a dinâmica fosse bem diferente, entre os que os querem levar a bola para um lado e os outros que correm na direção contrária, com a mesma intenção.

Não está errada, principalmente para um leigo, mas perde um pouco do brilho, da intensidade dessa busca que é o gol. No caso do 3 a 0 tomado para o Corinthians, essa percepção torna o resultado menos doloroso, como se a grade que separa o vestiário do campo do Independência filtrasse muito da paixão.

Enquanto mal se vê a bola lá na frente, o goleiro vira uma figura solitária, passiva e mera espectadora. Talvez é o que, entre as quatro linhas, mais se parece com a gente, torcedor. Não resta muito a fazer do que torcer para que a bola entre do outro lado, diminuindo a pressão do lado de cá.

A diferença é que, para o camisa 1, pouco importa se deu para ver o lance em sua totalidade e complexidade. Basta meio gol para tirar um pouco do peso sobre os ombros. Por ser o único a usar as mãos, o goleiro usufrui de um benefício falso. Ficar atrás da meta oferece a exata dimensão da dificuldade que é: dois postes separados por 7,32 metros.

O zagueiro que tira a bola em cima da linha é exaltado, por exigir um esforço quase não humano, malabarístico. Para o goleiro, um pulo, uma esticada de braço não passa de um movimento natural, treinado dia após dia. Uma bola passada por debaixo das pernas é uma aberração, um espaço que jamais deveria ser penetrado.

Confesso que senti por Victor, que nada pôde fazer quando a bola veio sorrateira, de pé em pé, com um monte de gente em sua direção, como num grande ataque para ferir o seu brio, invadindo o que ele deveria proteger a todo custo. Tem um quê de bárbaro, de usurpação.

Nunca tinha pensado na palavra nesses termos, mas o ataque é justamente isso: uma agressão, uma ação contra alguém. E como todo ataque bem-sucedido, é ultrajante para o vencido, reproduzindo uma atitude presente desde os primórdios de nossa História, de sair de seus domínios para tomar o que não é seu de origem.

O futebol é uma guerra, nada de moderna. Ainda se resolve no embate corpo a corpo, daí a razão de se tornar apaixonante: vai de encontro ao que há de mais básico na vida humana. É a explicação, possivelmente, para evitarem a adoção da tecnologia no esporte, já que traria algo de justiça que não cabe no mundo real.

Num mundo perfeito, o Galo seria campeão do Brasileiro 2015. Sem mais nada o que fazer, o que resta é a dor, expressa na forma como os jogadores saem de campo bem ao seu lado, ainda ofegantes, como aquele rebanho que segue por um trecho estreito do curral em direção ao matadouro.

Na arquibancada, mais distante, estaria, imagino eu, xingando e escolhendo algum culpado, como se analisasse em retrospectiva cada movimento desse tabuleiro de xadrez. Deveria mexer com o cavalo ali, não com a torre, por exemplo. Da arquibancada, tudo fica mais agradável, até mesmo a derrota.

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