Soltando papagaios

Aqui é Galo! / 11/01/2019 - 07h00
papagaio

 

 

Em outros tempos, neste mesmo mês do ano, meu tio, para quem não havia problema que não poderia ser resolvido, saía de casa com um monte de contas nas mãos, dizendo para a patroa: “Vou fazer um papagaio”.

A expressão está ligada à necessidade de criar uma dívida, pegando empréstimo do banco. Os dicionários voltados para frases populares explicam que o bicho só entrou nesta história por ser verde (remetendo à cor das cédulas) e à habilidade de se dependurar, assim como um devedor das instituições financeiras.

Meu pai sempre teve horror à ideia de ficar devendo. Sempre pagou à vista, não aderindo (e fez muito bem) às facilidades proporcionadas pelo cartão de crédito. Os dois – pai e tio– me vêm à mente agora por conta da contratação de Papagaio, o atacante.

Nunca tinha ouvido falar do jogador e confesso, curioso que sou, a minha dificuldade em encontrar a origem deste apelido de Rafael Elias da Silva. Como tem apenas 19 anos, imagino que seja uma daquelas brincadeiras de crianças que acabam pegando.

A imaginação voa longe e vejo o garoto correndo pelas ruas atrás de um papagaio à deriva, após perder a topada nos céus.

Para desespero de Levir Culpi, pode ser um nome que nasceu do hábito de falar muito. Fora os capitães, jogadores que abrem a boca à reveria no campo se tornam um senhor problema, para os companheiros e para os árbitros, invariavelmente reclamando de bola mal passada ou “apitando” as faltas.

O bom é que, pelo retrospecto de Papagaio, ele até pode falar muito, mas não deixa de marcar gols. E muitos. Lembro da minha mãe me xingar, na época de pequeno, por não conseguir falar e fazer outra coisa ao mesmo tempo, como se tivesse que interromper um trabalho qualquer para ordenar as palavras.

Papagaio, não sabia, é o mesmo que urinol, também conhecido por bispote, cabungo, mijadeiro e penico. Fazer xixi na cama, quando criança, não é algo incomum. Mas é assunto tratado dentro de casa, como sabem. Imagine um coleguinha vendo o papagaio embaixo da cama e ouvindo a mãe do outro perguntar: “Hoje conseguiu fazer no papagaio, filho?”.

O medo do atleticano, para dizer a verdade, é de o contratado “mijar fora do penico” (ou papagaio). E acabar sendo uma decepção. Vindo do Palmeiras, não seria difícil de acontecer, pelas experiências recentes – Arouca, Erik e Juninho, todos emprestados, como Papagaio, e já prontamente devolvidos. O único que não mijou fora foi Róger Guedes, mas acabou, em pouco tempo, aliviando-se em penicos alhures.

Já que essa parceria atletico-palmeirense parece distante de terminar, sugiro a criação de uma punição, como ocorreu na China. Quem erra o alvo e lança xixi para fora do mictório, é multado nos banheiros públicos da cidade de Shenzen. Fico pensando quem estaria, no caso, vigiando a pontaria do outro. Entre as quatro linhas, ficaria mais fácil saber, com cada bola perdida pesando no bolso do jogador.

Mas se o contratado for um Papagaio-verdadeiro (a espécie mais conhecida da ave), podemos prever muitas dificuldades para os zagueiros adversários. Pelo menos, um “calorzinho” vai ter. É que o nome científico do bicho é justamente Amazonia aestiva (calor em latim). Com um jogador assim, novo, com faro de gol e uma Libertadores pela frente, que clube vai precisar ficar fazendo papagaio para deixar as contas em dia?

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