A Amazônia e o mundo

Direito Hoje / 03/09/2019 - 06h00

Antônio Álvares da Silva

A atitude nem sempre sensata do presidente Bolsonaro de criar frequentes crises, desta vez, trouxe complicados resultados para o Brasil. Especialista em atear fogo, agravando conflitos em vez resolvê-los, o presidente adota uma postura bélica que não é a bandeira diplomática de nenhum país do mundo. Como vivemos uma época de incêndio, os pequenos focos, materiais ou políticos, se espalham como rastilhos de pólvora, tanto nas mesas de reuniões, quanto na Floresta Amazônica, e geram um incêndio maior, que agora está difícil de apagar.

A Revolução Industrial, que atingiu toda a humanidade, trouxe, como de sempre, vantagens e destruições. Cumpre então à ciência selecionar o joio que respinga sobre o trigo, para que as máquinas tragam mais favores do que males. 

Uma das características dos tempos pós-modernos é a intensa comunicação entre os povos. Hoje, pode-se dizer, não há mais países, mas, sim, país único, formado pelos meios de comunicação, que não conhecem fronteiras ou limitações. Passam por cima de tudo, entram em todas as coisas, trazendo, para cada país e, dentro dele, para qualquer pessoa, dados e informações ilimitadas, que despertam em homens e nações a necessidade de estender a vista além de suas fronteiras, para criar um imenso universo que pertence a todo mundo, pois é por todo mundo formado.

Hoje, fala-se, por isso, em bens que não são mais de países, mas da humanidade: meio ambiente limpo, preservação de florestas e rios, biodiversidade e conhecimento científico, que as universidades criam e disseminam pelo mundo.

A Amazônia é uma região cuja preservação é um dever de toda a humanidade, pois seus efeitos, bons ou maus, não se restringem aos noves países que dela recebem influência direta. Por isso, é natural que o mundo queira participar diretamente da preservação deste bem coletivo, que pode trazer efeitos destrutivos ou benéficos para a própria humanidade. Tudo dependerá do modo de enfrentá-los.

Quando se fala num estatuto universal, criado por diferentes países, para atuar na Amazônia, isso não significa, de forma alguma, perda de nossa soberania. Pelo contrário, significa reforço dela e sua projeção para o mundo, como um exemplo a ser seguido.

Esta tendência universal já existe e se manifesta em diferentes órgãos, dos quais o exemplo máximo está na ONU, depois se estende a unidades menores tais União Europeia, Nafta e ONGs de diferentes objetos e assim por diante.

Bertrand Russel, em diferentes obras de seu acervo cultural, como filósofo e matemático, repete frequentemente a necessidade de o mundo se transformar num Estado único pelo menos para setores, entre os quais está a preservação de aspectos que precisam do auxílio integrado e da união de certos países, para conservar bens que são comuns também a todos os outros.

Se ainda é cedo para pensar nessa grande ideia, está na hora de introduzi-la com instrumentos menores que prevejam ação recíproca para combater emergências que constituem um problema universal. Blocos como Mercosul, Nafta e outros em formação são o exemplo de que a ideia se transforma em ação e começa a habitar entre nós.

Um estatuto mundial ou pelo menos restrito aos países que o aceitarem seria de fundamental importância para salvar a Amazônia. Universidades locais e internacionais que lá se fundariam teriam por missão organizar uma ação conjunta, eficiente e dotada de instrumentos eficazes para operar e combater incêndio, grileiros, desmatamento, reflorestamento, garimpeiros, lavoura e pecuária científicas, que produzem sem destruir, e por aí vai. Tecnologia moderna, manipulada por brasileiros e estrangeiros, saberia combater esses males comuns que salvariam um patrimônio, que hoje é do Brasil e do mundo.

Ser nacionalista não significa mais isolamento do mundo, mas integração num universo que a todos pertence. O homem, na sua passagem pela terra, organiza-se, como pessoa e grupo. Pertence a si próprio e às nações em que vive. Agora é a vez de estender esse personalismo para o universo formado pelo homem, nações e natureza, em harmonia com todos os seres vivos.

Temos que ter a capacidade e grandeza de deixar para os que virão atrás de nós um mundo em que se possa viver com alegria e solidariedade, que não pertence a indivíduos ou nações, exatamente por ser de todos. Devemos aprender agora com o que vemos na Amazônia. Antes que o fogo que lá grassa queime também nossas esperanças de construir um mundo melhor.

Professor titular da Faculdade de Direito da UFMG 

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