'A única maneira de combater a praga é com decência'

Opinião / 03/09/2020 - 06h00

Débora Brito Goulart*
 

A crise provocada pelo coronavírus está produzindo alguns exemplos positivos de cooperação global, mas também está expondo muitas linhas de falha e revelando algumas tendências alarmantes. Alguns dos países mais afetados da União Europeia expressaram ressentimento devido à falta de solidariedade dos países vizinhos. Nos Estados Unidos, alguns estados estão envolvidos em uma guerra de licitações por equipamentos médicos utilizados no tratamento da Covid-19; decisões nacionais urgentes de saúde pública ficaram atoladas em partidarismo político. 

No Brasil, o ceticismo científico e o dogma político contaminaram o debate nacional em torno da pandemia. Nosso país tem sido consistentemente classificado entre os mais desiguais do mundo desde a época em que os dados de índice de desenvolvimento humano foram disponibilizados na década de oitenta. Segundo dados do IBGE, a desigualdade de renda no Brasil aumentou no último trimestre de 2019 pelo décimo nono trimestre consecutivo – representando a tendência mais sustentada já registrada na história do país. A pandemia está chegando ao topo das vulnerabilidades de renda, habitação e alimentação. A fraca infraestrutura, falta de liderança e um histórico de extorsão criminosa agravam o quadro. 

Em todo o mundo, existem preocupações legítimas de que a delimitação de comunidades e o fechamento de fronteiras para fins de contenção do coronavírus reforcem a xenofobia. Também vivenciamos um desconforto com o fato de que as suspensões das liberdades civis possam encorajar o autoritarismo. Nas próximas décadas, tanto nossas ações coletivas quanto a falta delas serão debatidas, mas algumas lições já são evidentes. 

O mais convincente é o fato de que a desigualdade extrema agrava a pandemia. Os mais privilegiados não podem simplesmente construir muros altos o suficiente para se isolarem do vírus – sejam esses muros dentro ou entre territórios. Assim como especialistas em saúde pública do século 19 defenderam a melhoria urgente da habitação e saneamento, especialistas em saúde pública do século 21 devem defender a necessidade urgente de combater a desigualdade social – pelas mesmas razões do bem-estar público. A desigualdade extrema causa disfunções sociais onerosas, sendo prejudicial a todos.

Quase 3 bilhões de pessoas em todos os países em desenvolvimento não têm acesso à água potável, outros milhões não têm acesso a cuidados de saúde adequados, vivendo em favelas ou campos de refugiados onde o isolamento social é utopia. Precisamos de ações coletivas e robustas para responder aos desafios imediatos e futuros. Nossas ações devem redefinir de forma abrangente os paradigmas da saúde pública global e não devemos esquecer que a solidariedade é uma aliada imprescindível. “Pode parecer uma idéia ridícula, mas a única maneira de combater a praga é com decência.” – Dr. Rieux no romance de 1947 de Albert Camus, The Plague. 

*Bacharel em medicina veterinária (UFMG), especialista em ciência animal (Universidade de Minnesota), mestre em ciência dos alimentos (Universidade de Wisconsin) e doutoranda em microbiologia e imunologia (Universidade Estadual de Iowa)

 

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