A dor por trás do "exagero"

Opinião / 15/02/2021 - 06h00

Gustavo Márcio Silvino Assunção*

A dor é um elemento no cotidiano das pessoas e quando se torna crônica, uma clínica para a dor passa a ser fundamental no tratamento. De acordo com a classificação brasileira da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor, a dor crônica é aquela que perdura por um tempo igual ou superior a três meses e causa impactos negativos do ponto de vista do sofrimento físico e emocional. O problema causa alterações psicológicas e psiquiátricas, podendo, inclusive, acarretar depressão e reduzir a capacidade de realização de tarefas simples, comprometendo, ainda, a jornada diária de trabalho.

Sabe-se que a dor é subjetiva e duas pessoas lidam de formas diferentes a uma mesma intensidade de dor. Contudo, a algia se cronifica, perde um fator temporal importante, que é quando pode terminar ou quais alterações poderá gerar. É possível afirmar que uma pessoa com experiência emocional pregressa negativa manifestará uma resposta a dor muito mais intensa que uma pessoa com maior controle emocional, psíquico e biológico. A dor é considerada um sintoma, mas sua cronicidade a torna uma doença, sendo necessário um tratamento especializado.

As dores são classificadas como leves, moderadas e de forte intensidade. A avaliação ocorre com base na Referência da Escala Visual de Dor, variando de 0 a 10, sendo “zero”, o paciente não apresenta dor e “dez” é considerada a pior dor possível. A escala é importante para direcionar o tratamento, uma vez que as medicações sejam ministradas de forma racional, evitando a incidência de efeitos secundários.

Nas décadas de 1960 e 1970, a dor era considerada usual. A partir de então, com advento e as criações dos centros para tratamento de dor especializados, qualquer pessoa que apresente dor, induzindo a fazer uso de medicamentos de maneira irracional ou indiscriminada, comprometendo a qualidade de vida, o sono, o bem-estar e as atividades diárias, é uma candidata a procurar auxílio no centro médico para tratamento.

As dores podem ter origem psicológica, orgânica, emocional e, por isso, a terapêutica exige multidisciplinaridade de profissionais. O Clínico de Dor fará o diagnóstico, orientações e os tratamentos básicos e especializados. Havendo necessidade, solicitará a participação, por exemplo, de um acupunturista para os tratamentos não medicamentosos – esse tipo de abordagem deve ser realizada por médicos capazes e especialistas -, apresentando evidências científicas muito fortes no sucesso do tratamento.

Além do especialista em dor, a equipe multidisciplinar da clínica de dor tem neurologistas, ortopedistas – principalmente de coluna -, reumatologistas, fisiatras e dermatologistas, entre outros. O auxílio multimodal é crucial para o sucesso do tratamento da dor crônica, uma vez que pode ter diversas origens. Infelizmente, essa condição é uma realidade que poucos dão a devida importância e, muitas vezes, são taxadas por terceiros como “exagero” de quem a sente. O sofrimento que pode acabar com o acompanhamento correto. Não se deve comprometer a qualidade de vida, procure ajuda adequada.

* Médico especialista em Dor crônica, da Clínica da Dor do Hospital Madre Teresa

 

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