A mulher, a barata e o enigma da esfinge

Opinião / 19/12/2020 - 05h42

Mauro Condé*

“A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar duram uma eternidade”

Acabo de voltar de uma viagem rumo ao conhecimento, usando como meio de transporte excelentes livros de escritoras renomadas.
Eles me levaram para um simpático café com vista para o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro de 1977, onde fui recebido por Clarice Lispector, a quem fui logo pedindo:

Ensina-me algo que eu ainda não saiba e tenha o poder de mudar a minha vida para melhor.

-Tenha total foco no aqui e no agora, pois esse é o único tempo que importa na vida.

-Assuma que ninguém mais, fora de você, deve ser responsável pela construção da história da sua vida.

Clarice tinha pressa de viver e ódio dos tempos passado e futuro.

Ucraniana, chegou ao Brasil junto com a família fugindo da perseguição aos judeus.

Propensa à depressão desde pequena, Clarice encontrou nos livros e na leitura o maior refúgio para aplacar suas tristezas e angústias.
Uma das maiores escritoras da História, tinha um estilo próprio de escrever, transformando o enredo de suas histórias em servidor dos dramas de seus personagens.

Em Paixão Segundo G.H, um dos seus grandes clássicos, ela abriu a história contando sobre uma longa troca de olhares entre uma senhora rica e abastada e uma pobre barata pousada na porta de um armário.

Essa cena paralisante serviu de gatilho para a construção de cerca de duzentas páginas com a mais profunda reflexão sobre a complexidade do ser humano a partir das banalidades do seu cotidiano.

Clarice era tímida e ao mesmo tempo tão carismática que chegou a ganhar de presente no dia do seu aniversário, 10 de dezembro de 1977, um poema publicado no Jornal do Brasil por ninguém menos do que Carlos Drummond de Andrade, intitulado “Visão de Clarice”.

Pena que ela não chegou a lê-lo, pois morreu um dia antes num hospital do Rio.

A família, de tradições judias, transferiu seu enterro de sábado (dia sagrado) para domingo e colocou uma recomendação no convite do sepultamento para que as pessoas não enviassem flores.

A ironia do destino é que, em vida, Clarice se dizia admiradora dos livros, das crônicas, dos sábados e das flores.

Dias antes de morrer, escreveu para um amigo contando a aventura de estar cara a cara com a Esfinge no Egito, sem conseguir decifrá-la.
Em troca, fez-se indecifrável para a Esfinge.

Leia Clarice, isso vai te proporcionar um bom passatempo de vida.

*Palestrante, Consultor e Fundador do Blog do Maluco.
 

 

 

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