A nova fronteira da 'uberização' do setor de energia

Opinião / 08/07/2021 - 06h00

Vinícius Marini Ferreira*

O Brasil enfrenta aquela que já é considerada a pior seca dos últimos 91 anos e que pode impactar o fornecimento de energia elétrica, devido à grande dependência do País da geração hidráulica, responsável hoje por mais de 63% da oferta de energia.

O atual nível dos principais reservatórios acendeu o sinal de alerta no governo, no Operador Nacional do Sistema, nas geradoras e distribuidoras, e também chama a atenção dos consumidores, que temem tanto problemas de abastecimento - não se descarta a possibilidade de haver um racionamento- quanto o efeito nas tarifas de energia, que serão pressionadas pelo inevitável acionamento das termoelétricas fósseis, de custo mais elevado e de grande impacto ambiental

Diante desse cenário e da pressão da sociedade por fontes energéticas sustentáveis, que contribuam para a maior oferta de energia, a geração eólica e a solar ganham impulso e estão ajudando a diversificar a matriz energética, ao mesmo tempo em que poupam os reservatórios e geram energia nos momentos de maior demanda - os períodos da manhã e da tarde.

Além de trazerem mais robustez ao sistema, os investimentos nessas fontes permitem uma regionalização da expansão, com usinas mais próximas dos centros de consumo, algo que contribui para o melhor atendimento da carga e a redução de custos com linhas de transmissão, além do menor impacto ambiental, que é uma fração daquele causado pelas áreas inundadas necessárias à construção de grandes usinas hidrelétricas e muitas vezes menor do que aquele provocado pelas termoelétricas.

As tecnologias de geração e de armazenamento de energia elétrica localizadas junto às unidades consumidoras têm se mostrado também uma alternativa para ajudar a driblar a alta no preço da energia elétrica, agora sobretaxada por conta da Bandeira Vermelha Patamar 2. Inclui-se nesta categoria a Geração Distribuída, modalidade na qual o consumidor pode ter sua própria fonte de geração, com painéis fotovoltaicos no telhado, por exemplo, ou ainda a Geração Distribuída Compartilhada, em que é possível consumir energia elétrica gerada, de forma remota, em fazenda solares instaladas dentro da mesma área de concessão. Ambas são um caminho para se garantir a maior oferta e evitar o impacto tarifário da bandeira vermelha.

A Geração Distribuída Compartilhada representa uma espécie de "uberização" do setor de energia elétrica, pois o consumidor pessoa física pode contratar eletricidade proveniente dessas fazendas, por meio de um aplicativo pelo celular ou pela internet, pagar um preço inferior ao da energia fornecida pela concessionária - parte dos incentivos recebidos pela produção solar são repassados em forma de descontos para o consumidor - e utilizar o cartão de crédito para pagamento, em modelo semelhante ao do Uber, de contratação de transporte pelo aplicativo.

A GD solar fotovoltaica, que vem crescendo exponencialmente no Brasil, é um exemplo de como a expansão, a abertura, e a modernização do setor, apoiadas cada vez mais na digitalização, podem trazer eficiência ao modelo e promover o protagonismo do consumidor, que pode escolher o tipo de energia que deseja consumir e, no caso das unidades geradoras compartilhadas, inclusive vender o excedente, ajudando a desonerar a geração e a transmissão como um todo.

O Brasil caminha em direção do crescimento das fontes renováveis intermitentes, da abertura e da modernização. As lições aprendidas durante esse difícil período têm ajudado a catalisar a implementação dessas e de outras soluções mais eficientes e tecnologicamente avançadas para o momento atual e para quando a crise hídrica e as dificuldades impostas pela Covid-19 passarem.

Sendo mantidos os prazos propostos no Projeto de Lei do Senado nº 232/2016, que dispõe sobre o modelo comercial do setor elétrico, a portabilidade da conta de luz e as concessões de geração de energia elétrica, que ainda dependem de aprovação na Câmara dos Deputados e de sanção presidencial, o mercado estará aberto a todos os consumidores de energia do País em poucos anos. E o Projeto de Lei nº 5.829/2019, que dispõe sobre a geração solar, também em tramitação no Congresso, avança para garantir mais liberdade e opções de escolha ao mercado consumidor

Mesmo diante do cenário incômodo sem precedentes na história recente, é salutar manter os holofotes nas alternativas já disponíveis e naqueles que potencialmente podem ajudar a melhorar o cenário energético nacional. No fim do dia, os ganhos alcançados serão compartilhados entre todos.

(*) Sócio-diretor da Safira Solar

 

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