A polarização eleitoral entre Bolsonaro e Lula em tempos de pandemia

Opinião / 30/03/2021 - 06h00

Adriano Cerqueira*

No dia 7 de outubro de 2018 ocorreu o primeiro turno das eleições gerais no Brasil. Jair Bolsonaro teve o equivalente a 33% do eleitorado (46% dos votos válidos, ou nominais), enquanto Fernando Haddad (que substituiu a candidatura de Lula) teve o equivalente a 21% do eleitorado, que correspondeu a 29% dos votos válidos.

Desde 2019, alguns institutos de pesquisas procuraram medir as preferências eleitorais para 2022, testando diversos nomes contra Bolsonaro. Analisando em bloco as pesquisas feitas no período, observa-se uma tendência na preferência do eleitorado. Bolsonaro obteve um percentual de votos que variou de 26% a 35% do eleitorado. Já o nome de Lula, quando testado, obteve um percentual de votos que variou de 18% a 29% do eleitorado. A conclusão, levando em consideração as margens de erros das pesquisas, é que as médias de Bolsonaro e Lula estão próximas do percentual do eleitorado que votou no primeiro turno de 2018, indicando a persistência da polarização entre esses políticos.

Entretanto, ao se analisar mais detalhadamente as preferências do eleitorado no período posterior à eclosão da pandemia de Covid (março de 2020), a polarização sofre uma modificação substancial. Antes de março de 2020, as pesquisas feitas desde 2019 mostraram a candidatura de Lula recebendo o apoio de 28% a 29% do eleitorado, enquanto a candidatura de Bolsonaro recebeu o apoio de 31% a 32% do eleitorado. Desta forma, Lula melhorou significativamente sua performance tendo como marco o resultado do primeiro turno, enquanto Bolsonaro teve uma performance semelhante à obtida no primeiro turno. Mas o quadro pós pandemia indica uma mudança significativa. Nas pesquisas posteriores a março de 2020, a candidatura de Lula variou de 18% a 23% do eleitorado, enquanto a de Bolsonaro variou de 26% a 35%. Logo, a performance de Lula teve uma queda significativa, enquanto a de Bolsonaro se manteve constante.

A análise do período pós pandemia revela que a possível candidatura de Lula - após decisão monocrática do ministro Fachin do STF que anulou as condenações de Lula na justiça – terá um desafio imediato que é o de revelar o posicionamento de Lula na pandemia, pois aparentemente seu nome ficou esquecido para uma parcela do eleitorado. Bolsonaro, por outro lado, desde o início teve que se posicionar e aparentemente adotou uma eficiente estratégia eleitoral para 2022. Logo, o desafio imediato de Lula é encontrar uma postura diante da pandemia que lhe garanta maior apoio eleitoral e, ao mesmo tempo, seja um contraponto à de Bolsonaro.

Outro problema para Lula é que o domínio do PT sobre as outras legendas de esquerda caiu. Será muito difícil que os demais partidos de esquerda aceitem ficar unidos em torno da candidatura de Lula e provavelmente haverá mais candidaturas no primeiro turno competindo com a do PT.

Bolsonaro, por sua vez, como já adotou uma estratégia eleitoral em tempos de pandemia que tem funcionado (manutenção do apoio de um terço do eleitorado), terá mais facilidades para polarizar com a candidatura de Lula, pois é um adversário conhecido e que foi derrotado por ele em 2018 (Haddad constituiu uma candidatura que dependia de Lula).

Quanto aos demais candidatos que buscaram se viabilizar eleitoralmente contra Bolsonaro, o nome de Lula surge como uma grande ameaça e praticamente inviabiliza o esforço de alguns partidos de construir um nome de “centro” para se contrapor ao de Bolsonaro. Caso Lula se torne candidato será reeditada a polarização contra Bolsonaro, pois as bases eleitorais deles representam, juntas, algo próximo a 60% do eleitorado. É muito espaço para ser conquistado em pouco tempo.

*Professor de Relações Internacionais do IBMEC-BH

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Comentários