A psicanálise e o para além do Édipo, marca da pós-modernidade

Opinião / 21/01/2021 - 06h00

Anamaria Batista Nogueira*

Estudar psicanálise sem compreender sobre o Édipo é algo relapso! Entretanto, esse trajeto não é indicativo de que devemos parar nossa pesquisa teórica e clínica no Édipo, tal como o fez Sigmund Freud o pai da psicanálise. 

Freud (1897) na “Carta 71” dirigida à Fliess, revela conteúdos de sua própria análise, onde toma o mito do Édipo por Sófocles, da Grécia Antiga, como um significante metafórico, que vai, por sua vez, substituir o desejo materno. Trata-se, portanto, de um regulador universal que representa uma função paterna. Mais precisamente, o complexo de Édipo não deixa de ser um recurso que pode ser utilizado pelo sujeito para lidar com a mãe – um recuo, uma barra, um limite em relação à mãe. 

Um único pensamento de valor genérico se revelou a mim. Verifiquei, também no meu caso, a paixão pela mãe e o ciúme pelo pai, e agora considero isso como um evento universal do início da infância, mesmo que não tão precoce como nas crianças histéricas (...) a lenda grega capta uma compulsão que toda pessoa reconhece porque sente sua presença dentro de si mesma. Cada pessoa da plateia foi, um dia, em germe ou na fantasia, exatamente um Édipo como esse, e cada qual recua, horrorizada, diante da realização de sonho aqui trasposta para a realidade, com toda a carga de recalcamento que separa seu estado infantil do seu estado atual (Freud, 1886-1899 [1897]/1969, p. 316).

Já o psicanalista Jacques Lacan, que releu a obra de Freud e inovou a teoria psicanalítica, nos traz outro significante como um operador estrutural, um recurso entre a mãe e a criança, o Nome-do-pai. Tá aí mais um significante norteador para que a criança não fique a mercê do desejo materno, que por sua vez, “carreia sempre estragos” (Lacan, 1969-70). 
</CW><CW-13>Uma das passagens clínicas em que o Édipo aparece no “Seminário 17, o avesso da psicanálise”, refere-se a três pacientes de Togo, do interior da África, que nada apresentam em seu discurso inconsciente sobre um norteamento edípico, ou mesmo em relação à um operador estrutural que mediaria a relação do sujeito com o Outro, o que surpreende Lacan. O que advém desses discursos nos é indicativo do que estaria para além do Édipo, em outras palavras, esses pacientes de Togo nos apresentam um arranjo ordinário, comum, feito diante da castração – a relação com o capital, “as leis da colonização” (p.85). Estavam sob as leis e o sistema hierárquico dos colonizadores. 

Porém, é muito limitante crer que esse sistema que ocupava o inconsciente desses pacientes africanos, era restrito a eles. A hierarquia que promove o sistema capitalista não influencia apenas os colonizados, mas também os colonizadores. O que é interessante na descoberta clínica de Lacan, é justamente a influência da força de um sistema que promove valores mercantis, e junto a ele desigualdade social, movimento de funções hierárquicas que envolvem o inconsciente. 

*Doutora em Psicologia/Estudos Psicanalíticos pela Universidade Federal de Minas Gerais (2016), mestre em Psicologia/Estudos Psicanalíticos pela Universidade Federal de Minas Gerais (2007).Atualmente é professora e supervisora de estágio clínico em Psicanálise no curso de graduação em Psicologia do Promove em Belo Horizonte.

 

 

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