A quem interessa as escolas fechadas?

15/12/2021 às 17:01.
Atualizado em 29/12/2021 às 00:33

Laura Serrano*

Lamentável! Assim defino o fechamento das escolas por mais tempo que o necessário. Entendo que o ensino remoto foi importante no início da pandemia. No entanto, enquanto todas as atividades retornam presencialmente, a quem interessa deixar os alunos tanto tempo fora das salas de aula?
Em Minas, ainda há mais de 90 municípios que não retomaram o ensino presencial na rede estadual. Há 114 mil alunos mineiros que estão sem aula há 1 ano e 8 meses. Mais lamentável ainda é constatar, por meio dos dados, os efeitos nefastos deste período de escolas fechadas na vida das nossas crianças e jovens. É de partir o coração de qualquer pessoa que, assim como eu, tem filhos — principalmente em fase escolar — e que reconhece o valor da educação.

A primeira radiografia das consequências da covid-19 sobre o ensino no Brasil é ainda mais angustiante. O levantamento feito entre setembro e outubro deste ano pela Fundação Lemann, Instituto Natura e a ONG Bem Comum, revelou que a pandemia elevou em quase 50% o número de crianças não alfabetizadas nas escolas públicas do país.

O afastamento das nossas crianças das salas de aula por mais tempo que o necessário custou muito e ainda custa. Os efeitos colaterais são mensurados pela evasão escolar, diminuição dos indicadores de aprendizagem, além de questões psicológicas e emocionais. Neste último quesito não só para estudantes, mas também para professores. Nossa sociedade, infelizmente, amargará os efeitos trágicos de subestimar a essencialidade da educação.

Em Minas, o levantamento feito pelo Unicef, divulgado recentemente pela Secretaria de Estado de Educação (SEE), revela que dos 1,7 milhão de alunos matriculados na rede estadual, 124,1 mil jovens mineiros, cerca de 7%, deixaram as salas de aula entre março de 2020 e janeiro de 2021. Podemos atrelar isso ao desestímulo nas aulas virtuais e a falta de suporte na modalidade remota de ensino.

Novamente: a quem interessa manter as crianças fora das salas de aula? Afinal, mesmo com o Governo de Minas liberando o retorno presencial dos alunos após estudos e análises dos parâmetros da pandemia no estado, quase uma centena de municípios mineiros ainda ignoram as recomendações. Há crianças afastadas das salas de aula, do convívio escolar e dos princípios básicos para a consolidação de uma sociedade melhor.

Aos que insistem em manter as crianças — mesmo sem necessidade — longe das salas de aula, é importante reconhecer que o processo de aprendizagem é complexo e tem suas janelas de oportunidade. As formas de pensar e os conhecimentos existentes numa sociedade são apropriados pela criança em sua formação. O contato direto com os alunos também ajuda os professores no processo de ensino em salas de aula.

Salas estas que vão além do ensino por si só. Elas garantem para muitas crianças o alimento, o olhar atento dos professores para combater maus tratos e abusos. É na escola que o pedido de socorro em silêncio das crianças vítimas de violência pode ser “ouvido”. A sala de aula ainda permite às nossas crianças o convívio com outras da mesma faixa etária, base primordial para um crescimento saudável e fraterno.

Eu continuo defendendo a reabertura segura de 100% das escolas porque a educação tem que ser uma prioridade mesmo nos contextos mais desafiadores. Não se percebe o aumento brutal da desigualdade num país que passou mais tempo com as escolas fechadas na rede pública enquanto muitas escolas da rede privada voltaram às aulas presenciais ainda no ano passado?

Prefeitos, vamos virar essa chave para construir um futuro melhor para nossas crianças?

*Mestre em Economia, Deputada Estadual, vice-líder de Governo, atuação com foco na melhoria da aprendizagem dos alunos

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