Acolhimento de professores deve ser prioridade para a escola

Opinião / 16/10/2021 - 06h00

Miriam Sales*

O Dia dos Professores é celebrado em 15 de outubro e teve origem no Brasil Imperial, por um decreto baixado em 1827 pelo Imperador Dom Pedro I, que instituiu o Ensino Elementar com objetivo de, entre outras coisas, regulamentar salário dos professores e matérias básicas. Mais de 100 anos depois, em 1947, o professor Salomão Becker, junto de outros colegas, teve a ideia de transformar a data em uma homenagem à categoria, cuja ideia era de que os profissionais tivessem uma folga nesse dia, principalmente para diminuir a sobrecarga ao longo do semestre. Foi em 1963, durante o governo de João Goulart, que a data foi oficializada e efetivamente transformada em feriado.

Passando pela data pela segunda vez em meio à pandemia, nos perguntamos o que, de fato, temos a comemorar, já que o momento é bastante desafiador para a educação, ainda que com a vida caminhando para o “normal”, inclusive com alguns estados retomando integralmente as aulas presenciais. Mas o mais importante é questionar como a escola e todos os agentes dela podem contribuir para que professores sejam verdadeiramente acolhidos, seja no retorno presencial ou no ensino híbrido, sem deixar de olhar também para o aspecto emocional desse profissional.

O desenvolvimento das competências socioemocionais, tanto de alunos, como também dos professores, foi significativamente comprometido pela pandemia. Soma-se o fato de que o assunto é relativamente novo, já que faz parte da Base Nacional Comum Curricular, documento homologado ao fim de 2018 pelo Ministério da Educação. Embora exista um abismo social no País e que dificulta o acesso à educação de forma geral, o problema afeta professores e crianças das redes públicas e privadas, de diferentes classes sociais.

Assim como esperamos que nossas crianças desenvolvam empatia e que saibam “se colocar no lugar do outro“, é preciso que a escola demonstre aos professores que eles serão acolhidos, que há alguém zelando por sua saúde mental e que, dessa forma, suas inseguranças e dificuldades serão superadas, compreendidas e respeitadas. O primeiro passo da escola, junto a coordenadores e gestores, deve ser acolher o professor, ouvi-lo e entender o que foi mais difícil, desde o fechamento das escolas, e quais são as principais dificuldades que ele enfrenta no momento, que podem ser barreiras com recursos tecnológicos, até a lida com perdas, possíveis traumas ou simplesmente as incertezas pertinentes ao retorno das aulas presenciais, remotas e híbridas. A partir dessa escuta é possível desenhar estratégias, como palestras e treinamentos até mesmo a ajuda de profissionais da saúde, a depender da gravidade de cada caso.

Embora sejam inúmeros os desafios que a pandemia e o retorno às aulas nos trouxeram, entendo como positiva a nova relação que vem se formando entre escola, professor, alunos e famílias. Os pais e responsáveis puderam ver de perto como se constrói o conhecimento, como é o trabalho do professor e principalmente a falta que ele e a escola fazem no cotidiano e na formação das crianças e adolescentes. Os professores conseguiram refletir com mais profundidade sobre a importância de planejar atividades que, intencionalmente, criem espaço para que crianças e responsáveis tenham momentos de qualidade juntos, consigam falar sobre suas emoções, sentimentos e como isso afeta sua vida familiar. E, se “é preciso uma aldeia para se educar uma criança”, é importante que a escola e todos os agentes dela estejam alinhados para construir o futuro de uma educação mais empática e humanizada. Mesmo com tantos reveses, é possível acreditar que no próximo Dia dos Professores tenhamos ainda mais motivos para celebrar.

*Formada em pedagogia, com ênfase em treinamento e desenvolvimento, e atualmente coordenadora pedagógica da Mind Lab, líder em pesquisa e desenvolvimento de soluções e tecnologias educacionais

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