Agronegócio 4.0

Opinião / 12/12/2019 - 06h00

Charlie Conner e Roberto Rodrigues

Nos últimos 20 anos, o agronegócio cresceu muito no Brasil e continuará crescendo ainda mais, tendo em vista que a intensificação da demanda por alimentos é uma das macrotendências mundiais. Se olharmos para o ano 2000, veremos que a produção de grãos, açúcar, café, carne e frango era praticamente a metade da que se produz hoje e naquela época quase 60% das exportações do agro iam para a Europa e para os Estados unidos. Isso mudou. Atualmente, a China é o grande cliente do Brasil do ponto de vista de importação de alimentos e no ano passado recebeu 37% do que exportamos.

Mais da metade da produção de grãos sai do Brasil direto para a China, que não é auto-suficiente em carne e grãos. Claro que com 1,3 bilhão de pessoas, é difícil ser autossuficiente em muita coisa. E dois terços do território chinês não têm as melhores condições para cultivar.

Ao analisar o PIB per capita de quanto as pessoas ganham versus o consumo de carne, veremos que com menos de US$1 mil por ano elas consomem praticamente zero de carne. Se ganharem um pouco mais, passam a consumir frango. Mas o frango depende de muitos grãos para crescer. O frango precisa de três quilos de ração para produzir cerca de dois quilos de carne. Já o gado bovino precisa de oito quilos. Se ganharem mais um pouco, cerca de US$ 5 mil a US$ 10 mil por ano, começam a consumir muito mais carne vermelha.

Seguramente, até de acordo com a ONU, a população do mundo inteiro vai continuar crescendo e comendo. O agronegócio dos EUA e de outros países desenvolvidos não consegue crescer muito mais, a não ser com novas tecnologias e o consequente aumento de produtividade, mas já são países com muito uso de tecnologia. A África teoricamente tem muita terra e água, mas ainda leva um bom tempo para oferecer alimentos sobrantes, até porque, a infraestrutura é limitada.

Outras regiões, como a Oceania, podem crescer, mas não no nível da demanda global que vem vindo.

Quem tem terra, água, tecnologia e gente capaz e empreendedora é o Brasil. Mas o grande gargalo aqui, hoje, é a logística. Se pensarmos nas longas viagens para transportar essa comida que está sendo produzida no Brasil até a China, por exemplo, o maior custo, depois da compra do grão, é o transporte rodoviário. Muitas pessoas não sabem, mas o custo de transportar produtos por rodovias do Brasil até o porto e daí para a China é muito maior do que o transporte marítimo a seguir.

Quando falamos de gente envolvida no transporte rodoviário brasileiro, estamos falando de mais de 2 milhões de pessoas e mais de 500 mil motoristas, só para o agronegócio. Esse trabalho ainda é feito de forma antiquada e informal, em que as empresas contratam motoristas por telefone ou aplicativos de mensagens, e o pagamento é feito em dinheiro ou cheque. E, agora, já dispomos de tecnologia na gestão desse segmento que permite reduzir custos, otimizar e aumentar a produtividade dos fretes.

Como dito no início, não existem dúvidas de que o setor continuará crescendo no Brasil e seremos o principal fornecedor de alimentos, energia e fibras para o mundo, mas precisamos desenvolver cada vez mais soluções para tornar mais eficiente a jornada destes mais de 2 milhões de brasileiros e brasileiras que têm um estilo de vida único e que movem o Brasil.

CEO da Sotran Logística e responsável pela plataforma digital Tmov e coordenador do Centro de Agronegócios da FGV, respectivamente

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