As pessoas transgênero e o câncer de mama

Opinião / 24/09/2020 - 06h00

Annamaria Massahud*

O termo “câncer de mama” é frequentemente associado apenas à população feminina, seja por força do hábito ou mesmo por desconhecimento. Entretanto, a neoplasia atinge outros grupos, aumentando a necessidade de debate sobre o assunto. Os homens, por exemplo, representam cerca de 1% dos casos, conforme o Instituto Nacional do Câncer (Inca). Apesar de as mulheres cisgêneros serem, de fato, as mais acometidas pela doença, com mais de 65 mil novos diagnósticos ao ano, é preciso lembrar que o câncer de mama também atinge a população transgênero.

O risco de câncer de mama em indivíduos transgêneros ainda está sendo definido. Um estudo observacional do University Medical Centre, em Amsterdam, foi publicado em maio de 2019, com 2.260 mulheres trans e 1.229 homens trans. Na população de mulheres trans, 15 casos de câncer de mama foram detectados, após uma média de 18 anos de tratamento hormonal e demonstrou um risco maior que a população masculina cis, mas menor que na população feminina em geral. Na população de homens trans, quatro casos foram detectados, média menor que o esperado para mulheres cisgênero.

O estudo mostrou que o risco geral de câncer de mama em pessoas trans permanece baixo e, portanto, parece suficiente que pessoas transgênero, que usam tratamento hormonal, sigam as diretrizes de triagem iguais às indicadas para pessoas cisgênero.

As mulheres trans podem ser tratadas com estrogênio para feminização e agentes com atividade antiandrogênica, como a espironolactona, para suprimir a testosterona. O tamanho e a composição tecidual da mama, após o tratamento com estrogênio, variam para cada indivíduo. Aproximadamente 60% das mulheres trans procuram cirurgia de aumento de mama.

Já, os homens transgêneros podem ser tratados com testosterona, administrada por injeção intramuscular ou por adesivo transdérmico, gel ou implante para masculinização, elegendo a cirurgia para criar um contorno torácico masculino. As progestinas são adicionadas para reduzir a menstruação e prevenir a hiperplasia endometrial até ocorrer a cirurgia uterina. O nível de testosterona dos homens transgêneros é equivalente ao dos que nasceram com sexo masculino, após o tratamento hormonal. Algumas pesquisas apontam níveis de estradiol acima dos níveis masculinos normais em 71% dos homens transgêneros, aos 6 meses de tratamento.

Embora o risco de câncer de mama reduza significativamente após cirurgia mamária no homem trans, os exames clínicos anuais ainda são recomendados para pessoas com 50 anos ou mais. É importante observar que a mamografia tradicional pode não ser possível após a cirurgia à escassez de tecido. A presença de cicatriz da cirurgia do homem trans pode dificultar a detecção do câncer de mama. Uma triagem clínica com um mastologista ou uma imagem por ressonância magnética pode ser necessária para rastrear com êxito o câncer de mama.

Nos casos de homens trans com alto risco de câncer de mama, a American Cancer Society recomenda exames anuais a partir dos 30 anos. Alto risco é definido como aqueles com risco de vida superior a 20%, incluindo quem tem mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, bem como não foi testado, mas tem um filho, irmão ou pai com mutação BRCA identificada.

Embora ainda não seja baseada em evidências, a mamografia de rastreamento é indicada para pessoas trans com fatores de risco, incluindo aquelas que recebem tratamento hormonal. O diagnóstico por imagem usando mamografia, ultrassom ou ressonância magnética, é o mesmo em mulheres trans ou não.
</CW>A recomendação é que a mamografia de rastreamento seja feita a cada dois anos, após a idade de 50 anos. Geralmente, recomenda-se que homens transexuais, que não tenham sido submetidos à mastectomia ou que tenham sido submetidos apenas à redução das mamas, sigam as mesmas diretrizes para a mamografia que as mulheres cisgênero, independentemente do tratamento hormonal.

Os médicos e pacientes devem se engajar em discussões sobre os riscos do excesso de exames e a avaliação dos fatores de risco individuais e hereditários. Mulheres transexuais têm uma alta prevalência de mamas densas, um risco para o câncer de mama e também um preditor de aumento das taxas de mamografias falsamente negativas.

É indiscutível a necessidade de ações no sistema público de saúde promotoras de uma educação continuada para os profissionais de saúde e que conscientizem a população transgênero sobre a prevenção e tratamento do câncer de mama.

* Presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia - Regional Minas Gerais
 

 

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