As relações frágeis e terapia de casal

Opinião / 12/06/2019 - 06h00

Ângela Mathylde

O Dia dos Namorados leva a uma reflexão sobre o crescimento na demanda por terapia de casal nos últimos anos. Os principais motivos para a procura da ajuda especializada são brigas constantes, rotina e infidelidade. Um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a partir de dados obtidos entre 1984 e 2016, revelou que um a cada três casamentos termina em divórcio. 

O estilo de vida consumista, não só dos brasileiros, como de grande parcela do mundo, está entre os principais motivos para o alto índice de separações. O consumismo também molda a maneira como a sociedade conduz as relações. De tanto associar qualidade com mercadorias prontas para consumo, fáceis e práticas, corre-se o risco de priorizar vários namoros, em vez de investir em uma relação duradoura.

Basta dar defeito para trocar um namoro por outro, como se faz com o celular. Aliás, a fragilidade dos laços humanos foi muito bem aprofundada pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, um dos intelectuais mais respeitados da atualidade.

Mas, como funciona a terapia de casal? A primeira dúvida que costuma pairar entre muitos casais é se o recurso é destinado apenas a pessoas legalmente casadas.

A terapia funciona tanto para cônjuges quanto para namorados, já que qualquer casal pode passar por dificuldades.

Vale lembrar que não há distinção entre casais heterossexuais e homossexuais, visto que os mecanismos psíquicos de um relacionamento amoroso independem da orientação sexual.

O importante é os envolvidos compartilharem o mesmo objetivo, ou seja, resgatar a relação. Quando apenas uma pessoa quer a salvação e a outra está mais focada no que ela acredita ser o fim, as chances de obter sucesso com a terapia de casal são mínimas.

Outro questionamento consiste no momento ideal para buscar a terapia. Seria melhor realizá-la com um intuito de prevenção ou apenas recorrer a um terapeuta de casal quando a situação está crítica? Costumo dizer que a melhor época para procurar ajuda é quando não há mais comunicação efetiva entre o casal, levando a brigas constantes ou ao distanciamento extremo.

As desavenças constantes desgastam a relação, pois brigar aborrece, magoa, estressa, ofende e até humilha. Às vezes, um motivo banal, como uma toalha molhada em cima da cama, pode se transformar em uma enxurrada de acusações que nada tem a ver com a circunstância.

O que pode acontecer, nesses casos, é um dos parceiros ou até mesmo ambos projetarem quaisquer frustrações e limitações da própria união, ou de influências externas, durante a discussão. O que era para ser uma briga – embora o melhor fosse uma conversa honesta - sobre um incômodo pontual torna-se um festival de ofensas gratuitas e descontextualizadas.

Além da projeção, a falta de comunicação entre o casal faz com que se jogue para baixo do tapete tudo aquilo que deveria ser dito, respeitosamente. O outro não é um feiticeiro para adivinhar o que desagrada. A melhor maneira de resolver qualquer atrito é conversando, mas somente quando a raiva tiver passado, evitando ofensas desnecessárias. 

É importante ressaltar que a terapia não é uma receita mágica para consertar qualquer desavença. Trata-se de um canal de mediação para auxiliar cada um a perceber e compreender a perspectiva do outro sobre a situação. Os parceiros ganham a chance de melhorar a comunicação e compreensão, que podem ter se desgastado com o tempo.

Psicanalista e terapeuta de casais

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