As várias faces da endometriose

Opinião / 23/03/2021 - 06h00

Agnaldo Lopes*

A oscilação de humor ou a vontade de comer doces são comuns no período menstrual, mas, para 10% das brasileiras em idade reprodutiva (13 a 45 anos), a menstruação ocorre com dores intensas em decorrência da endometriose. A maioria delas desconhece que tem a doença, pois os sintomas iniciais são confundidos com cólicas, atrasando o diagnóstico, o tratamento e aumentando as chances de infertilidade. A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) alerta sobre a necessidade de um diagnóstico precoce para melhorar a qualidade de vida. O mês de março é mundialmente dedicado à conscientização da doença, considerada um problema de saúde pública por interferir drasticamente na vida social e emocional feminina.

A endometriose é o tecido do interior do útero (endométrio) que descama na menstruação, fora da cavidade uterina, ou seja, em áreas como trompas, intestino, ovários e bexiga. O tecido acompanha o ciclo hormonal/menstrual da mulher e, mesmo estando fora da cavidade uterina, provoca sangramento, causando inflamação e dor. Além das cólicas durante a menstruação, a mulher pode sofrer com aumento do fluxo menstrual, dores ao urinar e evacuar, e até durante a relação sexual.

A última pesquisa da Febrasgo apontou que 6,5 milhões de brasileiras não costumam ir ao ginecologista-obstetra, 4 milhões nunca procuraram atendimento com esse profissional e outras 16,2 milhões não passam por consulta há mais de um ano. Esse atraso compromete o diagnóstico de endometriose em, aproximadamente, dez anos.

Cerca de 30% das mulheres com endometriose sofrem com problemas para engravidar. O tecido do endométrio se aloja em diferentes partes do aparelho reprodutivo, alterando a anatomia do órgão e, conforme o processo inflamatório se agrava, provoca infertilidade, que, dependendo do caso, pode ser irreversível.

A doença também afeta a vida profissional. Uma pesquisa com três mil mulheres, em parceria com o Grupo de Apoio às Portadoras de Endometriose e Infertilidade (Gapendi), revelou que 50% das participantes se ausentam do trabalho, até três vezes por mês, por causa das dores. Não é incomum ver mulheres com endometriose deixando de fazer suas atividades diárias e/ou sofrendo com alto nível de estresse e ansiedade. 

O diagnóstico é baseado em sintomas clínicos com o auxílio de exames de imagem em centros especializados, como a ultrassonografia transvaginal com preparo e a ressonância magnética. O tratamento medicamentoso depende dos sintomas e do grau da endometriose. Quando a escolha terapêutica não é suficiente, a alternativa é a cirurgia laparoscópica ou robótica, permitindo ver a extensão da doença para retirar as lesões. Em seguida, faz-se um tratamento de manutenção com hormônios.
O diagnóstico precoce da endometriose faz-se urgente diante de uma doença que possui várias faces, sendo todas elas prejudiciais. A mulher deve ficar alerta aos sinais e procurar um profissional com grande experiência para controlar o problema e, assim, ter mais qualidade de vida.

* Presidente da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo)

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