Bacurau e o médico de família

Opinião / 04/12/2019 - 06h00

Matheus Silva

‘Bacurau, 17km. Se for, vá em paz’, esta é a placa solitária à beira da rodovia indicando a chegada ao pequeno vilarejo, em algum lugar distante dos grandes centros urbanos. A cidade fictícia desenvolvida pelos diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, no filme Bacurau (2019), reflete a realidade de muitas comunidades do nosso Brasil. Uma sociedade simples, desprovida de políticas públicas, formada por moradores idealistas, em sua maioria personagens femininos – e resilientes que lutam, literalmente, por um futuro melhor para a cidade onde vivem e convivem em harmonia, de maneira amistosa. Compartilhar, unir-se à vida local, defender ideais em comum em um povoado do interior distópico é a metáfora de um país doente, retratado no filme brasileiro. Indivíduos encaram a violência com naturalidade e, ao mesmo tempo, sentem amor pelo outro.

Uma cidade do interior de Pernambuco apresenta um sertão futurista, com drones, celulares e exploradores de recursos naturais – além de moradores deprimidos, que são medicados por Domingas, médica interpretada por Sônia Braga. É ela quem sabe as dores e as delícias de cada indivíduo de Bacurau. Uma espécie de conselheira pessoal, que representa a gestão pública de saúde da cidade.

Simples, de pés descalços, cabelos brancos aparentes, fala firme e de liderança forte: é ela quem luta e cuida dos mais diferentes personagens no decorrer da trama. Transexual, garota de programa, pessoas que andam nuas em casa são alguns dos pacientes de Domingas. A criação de vínculo nesta relação vai muito além de médico-paciente, a visão humanista e a empatia pelo indivíduo faz com que a médica não seja vista somente como uma profissional de saúde, mas, sim, uma parente, alguém com ar familiar.

Na narrativa retratada no filme, a personagem assemelha-se ao médico de família, que vai até a casa de seus pacientes e que, ao mesmo tempo, atende à comunidade: presta atendimento de Atenção Primária, conversa com um a um de forma humanista e personalizada. Seja de qual família for. Uma relação criada ao longo do tempo com quem Domingas atende normalmente.

Ela cuida de todos por meio da medicina integrativa, busca entender a causa da doença e não somente o que acomete à pessoa naquele momento. A médica direciona seu diagnóstico em analisar o indivíduo e não a doença em si.

Esse retrato de um povoado também é o reflexo futurista do filme; recentemente, um estudo da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) revelou que a Atenção Primária pode atender de 80% a 90% das necessidades de saúde de uma pessoa ao longo de sua vida. Ou seja, a sociedade caminha para o retorno do médico de família, aquele que conhece o histórico do paciente, evita prescrever exames desnecessários, analisa a questão emocional e faz um diagnóstico baseado em um contexto social e familiar – neste último caso, vai além da herança genética.

O médico de família é o responsável por trazer ressignificado à saúde para a sociedade, ensinar a ter uma vida focada no bem-estar físico e psicossocial. A evitar ou sanar doenças mudando, por exemplo, o estilo de vida. Em comunidades carentes, a importância deste profissional é inquestionável: ele é o primeiro e talvez o único contato com agentes de saúde. Já nos grandes centros urbanos, problemas como estresse, alergias, inflamações e outras complicações geradas pela alimentação irregular, vida desregrada, ansiedade, compulsão e até sinais de depressão podem ser diagnosticados sem necessidade de exames, mas com Atenção Primária.

Bacurau nos remete ao passado, mas também ao futuro. Nos mostra as mazelas, a liderança feminina na comunidade, o afeto, a convivência, a dor do outro, um mundo real e, ao mesmo tempo, distante. Um povoado que retrata a obscuridade da sociedade atual e expõe que as relações humanas e o conhecimento de uma médica podem ajudar a evitar doenças mentais geradas, às vezes, por questões internas dos indivíduos – e não necessariamente por doenças. Que existem diversas maneiras de se cuidar das pessoas, e, possivelmente, a melhor delas é olhar para o indivíduo como um todo. Alguém que, além de sintomas físicos, apresenta sintomas emocionais – vistos a olhos nus por quem sabe enxergar o ser humano e toda a sua complexidade em existir. No sentido mais profundo do termo, um profissional de saúde.

Formado em Engenharia Química e Economia na Worcester Polytechnic Institute, nos EUA, é CEO da Cuidas

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