Câncer infantojuvenil e fertilidade

Opinião / 05/02/2021 - 06h00

 

Antônio Eugênio Motta Ferrari*

O câncer é uma doença crônica que atinge pessoas em qualquer idade, sejam crianças, adolescentes, adultos ou idosos. As estimativas do Instituto Nacional do Câncer (INCA) apontam 8.460 novos casos infanto-juvenis no Brasil, sendo 4.310 entre meninos e 4.150 em meninas, no triênio 2020/2022. 

Os tratamentos disponíveis para os diversos tipos apresentaram vários avanços, garantindo uma taxa de sobrevida de cinco anos ou mais a 84% das crianças acometidas quando, há anos, essa taxa correspondia a apenas 58% dos casos. 

A evolução da medicina contribui para o aumento da taxa de sobrevida e cura da doença, dependendo do tipo de câncer e fatores, como precocidade do diagnóstico e tratamento utilizado, assim como também com a redução das consequências permanentes, como a infertilidade, que passou a ser minimizada com o congelamento dos óvulos, ovários, espermatozoides e testículos.

A preservação da fertilidade de crianças e adolescentes se tornou necessária, a partir do momento em que a maioria dos tratamentos de câncer apresentou uma sobrevida de mais qualidade. Infelizmente, os tratamentos ainda precisam evoluir para evitar os efeitos colaterais a longo tempo, desde problemas de desenvolvimento, crescimento e hormonais, a doenças cardíacas em alguns casos. 

A radioterapia na cabeça, por exemplo, pode afetar várias glândulas reguladoras dos níveis dos hormônios masculinos e femininos, inclusive comprometer a fertilidade. Nos meninos, a infertilidade é causada pela radioterapia em órgãos como cérebro, testículos ou abdômen. A quimioterapia também usa determinados tipos de agentes (alquilantes) que afetam os níveis de testosterona, prejudicando o desenvolvimento masculino na puberdade e também o sexual. Já, nas meninas, a quimioterapia e radioterapia na cabeça, pelve, coluna lombar e abdômen pode danificar os ovários e, consequentemente, provocar menstruação irregular, menopausa precoce e infertilidade. 

A preservação da fertilidade é possível de duas maneiras. Nas meninas, retira-se um pedaço do ovário para congelar e quando estiver em idade adulta, o órgão é reimplantado por cirurgia laparoscópica (minimamente invasiva), voltando a funcionar. Contudo, a reimplantação deve ser realizada somente quando a mulher desejar uma gestação, pois como não terá um ovário inteiro, se demorar a ter filhos, corre o risco de não haver mais folículos no ovário, inutilizando o procedimento. 

A preservação em adolescentes é relativamente mais fácil. A ovulação é induzida na menina para colher óvulos e congelar. Quando planejar a gestação, os óvulos são descongelados, fecundados com o esperma do parceiro ou um doador e os embriões transferidos ao útero. 

No caso dos meninos, ocorre o mesmo procedimento: depois da puberdade, se colhe o sêmen e congela. Antes da puberdade, pode ser feito o congelamento de um pedaço do testículo. Entretanto, o processo de reimplantação do testículo é um pouco mais completo e, ainda, os resultados não são tão satisfatórios quanto o reimplante ovariano.
A medicina evolui e o objetivo de especialistas é minimizar ao máximo os efeitos de doenças e tratamentos. A reprodução assistida também evolui e haverá um momento em que a infertilidade não será mais um sentimento de frustração, pois todos que desejarem um filho conseguirão realizar este sonho.

*Especialista em reprodução assistida, oncofertilidade e diretor da Clínica Vilara 

 

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