Contabilidade nas nuvens

Opinião / 11/04/2019 - 06h00

Daniel José Pimenta*

Certa vez, ainda na adolescência, vi meu pai chegando em casa com um caderno azul debaixo do braço, com a testa franzida, dizendo que aquele documento era muito importante, e que não deveríamos mexer com ele. Nas semanas seguintes, ao vê-lo manusear o mesmo, de posse de uma calculadora, perguntei do que se tratava: eram as instruções e os formulários da tal declaração de imposto de renda, que eu escutava nos noticiários. 


Naquela minha realidade, eu sabia que era algo que eu não deveria me preocupar, porém sabia que era um assunto muito importante. Com o passar dos anos, fui fazendo diversos cursinhos de informática –na época não havia acesso a internet como nos dias de hoje – e num desses cursinhos o instrutor avisou à turma: o disquete do imposto de renda já está disponível na secretaria estadual da fazenda. Eu mal contive minha ansiedade para ir buscar o tal disquete, após a aula. 


Cheguei em casa com o mesmo, porém não foi objeto de empolgação para meu pai. Reação compreensível pelo fato de ele fazer a declaração no papel por anos, além de nunca ter visto um disquete. Sem delongar muito essa narrativa, vocês já devem ter percebido onde quero chegar: a entrega da declaração foi acontecendo nos anos seguintes, com a entrega do formulário de papel e do disquete, depois somente com a entrega do disquete, pouco tempo depois com o disquete e pela internet, e por fim somente pela internet. 


Com o passar dos anos, fui entendendo o que era essa tal de “renda” que alguns milhões de brasileiros precisavam declarar e, ao mesmo tempo, presenciando a alegria de alguns contribuintes com a chegada da informática e o desespero de outros, com a obrigação de aprender como trabalhar nesse mundo de bits e bytes. Era a mudança da entrega física pela entrega virtual. Onde entro nessa história? Fui mostrando pro meu pai as vantagens de se fazer primeiramente via disquete e depois pela internet. 

A era do disquete foi a última vez que ele entregou algo físico na secretaria. Desde então, faço a declaração dele e de diversas pessoas. Tudo virtual, armazenado “na nuvem”. E falando em “nuvem”, não duvido que algumas pessoas imaginam a mesma como um lugar fantasioso, repleto de documentos e com muito dinheiro. Porque tudo é nela. Imagine em 2014, quando o Facebook comprou o WhatsApp por US$ 16 bilhões, onde US$ 4 bilhões foi em dinheiro. Quem viu ou manuseou esse dinheiro? Será que foi retirado na “boca do caixa”? Ou através de alguma entrega, em carro forte? Sabemos que não. 


Mais uma vez a transação resultou num fluxo enorme de bits, da ordem de milhões por segundo, de um ponto para outro da rede. Uma gigantesca transação, cujos registros estão armazenados em algum lugar nessa “nuvem”. E não precisamos falar de um montante exorbitante como o citado. Do seu salário mensal, parte você retira do caixa em “espécie” e parte fica armazenado na “nuvem”. Você somente monitora o saldo pelo celular.


Os profissionais que administram e gerenciam valores devem estar preparados para trabalhar nessa realidade,sem visualizar uma única nota. Devem possuir a habilidade no manuseio das informações, sem a preocupação de onde colocará todo esse dinheiro. A preocupação agora não é armazenar as cédulas, e sim o pen-drive. Como backup, é claro. 

(*) Mestre e bacharel em Engenharia Elétrica pela UFMG, professor do curso de Tecnologia em Redes de Computadores e Sistemas de Informação no Centro Universitário Promove há 10 anos. Analista de Datacenter da Claro Brasil. Entusiasta em sistemas contábeis.
 

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