Coronavírus, saneamento e saúde

Opinião / 23/07/2020 - 06h00

Lucas Marques Pessoa*

Com a divulgação da noticia de que o coronavírus foi encontrado no esgoto de Belo Horizonte, por conta de uma pesquisa da UFMG, em parceria com a Copasa, Igam, ANA e Fapemig, podem surgir novas preocupações, principalmente em um país como o nosso, carente em infraestrutura de saneamento. Esse estudo foi inspirado em outros estudos internacionais, sendo que todos se inspiraram de alguma forma no estudo pioneiro de Jon Snow (esse sabia das coisas), o pai da epidemiologia. No seu estudo, Jon Snow cruzou dados locacionais de doentes londrinos acometidos por cólera, com o de poços de abastecimento de água para consumo humano. Com essas informações foi possível combater a epidemia, identificando os seus focos e fechando as fontes de contaminação. Uma das implicações do estudo atual do coronavírus, é de que ele resiste ao sistema digestivo humano e persiste no esgoto, mas não se sabe ainda se ele se mantém ativo e passível de infectar pessoas. 

Estudos apresentados no Webinar da IWA (Associação Internacional de Água), no mês de abril, afirmam que o tratamento de água convencional, amplamente utilizado no Brasil, é suficiente para a remoção do coronavírus da água tratada. Porém nosso país possui ainda 35 milhões de pessoas que não contam com abastecimento de água adequado. Aqui se evidencia os impactos da falta da infraestrutura de saneamento com relação à pandemia global. Além disso, nesse momento é fundamental a disponibilidade de água tratada, em quantidade suficiente (segundo a ONU acima de 50 litros por dia por pessoa) para garantir a higiene pessoal, uma das principais prevenções à contaminação pela Covid-19. 

Quando o presidente diz que o brasileiro pula no esgoto e não acontece nada, há um grave equívoco. Tivemos em 2016 quase 350 mil internações devido a doenças transmitidas pelo contato com água contaminada, resultando em algumas centenas de mortes. Atualmente 100 milhões de brasileiros não contam com coleta de esgoto e algo em torno de 150 milhões não tem seus esgotos tratados. Para além da discussão do modelo e das regras de prestação dos serviços de saneamento, atualmente em pauta no Congresso, é preciso cidadãos conscientes, que pressionem seus representantes para avanço desses serviços. Os investimentos necessários para essa infraestrutura são altos (R$ 5 mil por pessoa em média para o sistema completo de esgoto) e muitas vezes, a cobrança de tarifas é extremamente impopular. Portanto, é imprescindível sabermos dos ganhos de saúde e qualidade de vida que o saneamento nos proporciona, para que estejamos dispostos a pagar pelos serviços, a fim de financiar sua instalação e operação, além de exigir dos nossos governantes que seja feito para todos, economicamente acessível e com qualidade. 

*Mestre em saneamento pela UFMG, professor do curso de Engenharia Civil das Faculdades Kennedy-Promove e PUC-MG, gerente de fiscalização operacional da Arsae-MG

 

 

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