Don Juan não era nenhum sedutor

Opinião / 27/02/2021 - 06h00

Mauro Condé*

“Não há erotismo sem verbo” – Escritor Reinado Moraes
Acabo de voltar de uma viagem rumo ao conhecimento, usando como meio de transporte excelentes livros sobre literatura mundial.
Eles me levaram para a Universidade de Graz, na Áustria, onde fui recebido por Peter Handke, premiado com o Nobel de Literatura, a quem fui logo pedindo:

Ensina-me algo que eu ainda não saiba e tenha o poder de mudar a minha vida para melhor.

-A vida é a arte da sedução. Para seduzir, torne-se o mais interessante possível. Para ser interessante, seja mais interessado.
Peter Handke é o autor de “Don Juan (narrado por ele mesmo)”, obra prima na qual, em estilo narrativo totalmente inovador, ele ressuscita o mito criado por Frei Tirso de Molina em meados do Século XVII e perpetuado por alguns dos maiores escritores da história.

Peter retira Don Juan de dentro do túnel do tempo para hospedá-lo num albergue, próximo dos escombros de Por-Royal-des-Champs, um secular monastério francês, onde ele se encontra com um cozinheiro solitário que, isolado, vive de preparar refeições para consumo próprio.
Don Juan enxerga no cozinheiro o confidente perfeito para o qual decide revelar seu maior segredo.
Revela não ser o sedutor que todo mundo pensa que é.

Diz que, na verdade, é ele que sempre procura as mulheres em busca de amores rápidos, para que, elas sim, o salvem do eterno vazio que sente provocado pelo medo da morte (aguçado pelo luto da perda de um filho) e pelo desespero de ver o tempo da vida passar como as folhas de álamo que voam dos galhos das árvores apressadamente, comuns por onde ele passa.

Em suas confidências narra, omitindo pormenores, como depois de um longo tempo de retiro e isolamento, se aventura com sete mulheres durante os sete dias anteriores ao encontro com o cozinheiro.

Ele se encontra com uma mulher diferente para cada dia da semana, com as quais busca desesperadamente sua salvação no amor instantâneo, respectivamente em paisagens paradisíacas de cidades da Geórgia, Síria, Marrocos, Espanha, Noruega, Holanda e um local que opta por manter anônimo.

Em cada um desses lugares lindos e desérticos utiliza o flerte como arma de conquista através de um olhar único que denuncia ao mesmo tempo carência, medo e promessa da esperança de tirá-las do deserto de suas existências.
Promessas, que como sabemos, nunca cumpriu.

*Palestrante, Consultor e Fundador do Blog do Maluco. 

 

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