Educar é experimentar e conviver

Opinião / 23/02/2019 - 06h00

Sandra Garcia*

No início de 2019, com as propostas de um novo governo tomando forma, foi anunciado que uma medida provisória seria editada para regulamentar o ensino domiciliar no Brasil. Apesar de causar preocupação em educadores, a MP que está sendo elaborada pelo Ministério da Educação e pelo Ministério da Mulher, Família e Segurança Pública pretende legalizar o chamado homeschooling. Essa prática significa ensino fora do ambiente escolar, em casa, sob supervisão dos pais. Por mais boas intenções que possam existir, no entanto, o que essa modalidade de ensino desconsidera é algo essencial para a formação do indivíduo na primeira infância: a troca de experiências.

Segundo dados da Associação Nacional de Educação Domiciliar (Aned), 7 mil famílias brasileiras adotam a prática do ensino em casa. Em 2018, o Supremo Tribunal Federal (STF), atendendo à recomendação da Procuradoria Geral da República (PGR), decidiu de forma contrária à liberação do ensino domiciliar, entendendo como um possível risco de isolamento social da criança, mas facultou ao Congresso legislar sobre o tema.
Devemos lembrar, porém, que a educação é um conjunto de práticas que ensina não apenas conteúdos formais, mas também prepara os alunos para a vida, para que sejam cidadãos éticos, felizes e empáticos, que pensem coletivamente.

Palco de brincadeiras, risadas, choros e desafios, a escola é um espaço de convívio essencial para a experimentação. Ao se relacionar diariamente com os colegas, as crianças aprendem a dividir, a trabalhar em equipe, a respeitar o momento certo de falar, a ajudar, se colocar no lugar do outro e a cuidar dos objetos e materiais compartilhados por todos. É por meio da vivência cotidiana que elas aprendem a estar no mundo e dão os primeiros passos para a construção de uma identidade própria. E é principalmente no ambiente escolar que as crianças descobrem que o diferente existe, e que isso pode ser fascinante e positivo.

Se as experiências com colegas ampliam os horizontes e contribuem para a formação da personalidade da criança, o papel do professor como mediador da aprendizagem não deve ser ignorado. Elemento de conexão, ele dá vida ao conteúdo que está nos livros e ajuda os alunos a fazer transcendências para a vida. Vale lembrar que essa identificação é muito mais poderosa quando coletiva. Daí a importância de criar dinâmicas de grupos, projetos que desafiem a turma a construir algo para o bem comum, a resolver problemas e a refletir sobre temas que estão por aí, bem à frente de seus olhos, mas que sozinhas não teriam a percepção.


Educar vai além de decorar fórmulas para depois escrevê-las em um papel. A educação é acima de tudo um instrumento de transformação. E o mundo, cada vez mais individualista e intolerante, pede por seres humanos capazes de conviver, compreender, aceitar, questionar, respeitar e construir... coletivamente.

(*)Diretora pedagógica Mind Lab, empresa líder em soluções educacionais inovadoras

 

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