Espaços híbridos: como fica a arquitetura no contexto da pandemia?

Opinião / 17/09/2020 - 06h00

Paula Blankenstein*
 

Vivemos uma experiência completamente inversa da realidade de muitos millennials até hoje. O tempo em casa, antes cronometrado e calculado com trânsito e muitas horas no escritório, se tornou mais fluido. 

Refeição, atividade física, trabalho e lazer se encontram no mesmo cenário. Antes, o que passava batido pela correria do dia a dia, agora é percebido com a vivência diária constante. Estamos vulneráveis ao nosso contato mais presente no momento – a relação com tudo o que nos cerca. Uma pesquisa nos EUA mostra que 47,4% das pessoas afirmam que irão manter os novos comportamentos relacionados à limpeza mesmo após a pandemia. Este cuidado, apreço e percepção dos ambientes existia? Ou foi adaptado pela vivência atual? O que mais ganhou tanta importância em nosso espaço? Talvez isso seja permanente, em uma nova rotina que teremos com menos dias no escritório e, por um tempo, sem aglomeração?

A aceleração do trabalho remoto se deu sem a nossa possibilidade de escolha. Tivemos que nos adaptar à realidade de reuniões diárias por videoconferência, o trabalho invadiu o espaço pessoal e muitas vezes se misturou com a família. Já quem mora sozinho foi obrigado a lidar com a falta de contato social físico. Nosso escritório virou a escrivaninha, a mesa de jantar, a cama, o balcão da cozinha, onde der. Além disso, a pandemia revelou que não precisamos trabalhar de casa, mas sim de onde quisermos - o “anywhere office”. 

Não podemos dissociar a arquitetura desse impacto. Ela deve proporcionar espaços que reflitam nossos valores, sejam os que já estavam aqui, sejam os novos, que adquirimos na pandemia.

Por esta razão, as disposições dos espaços precisam ser mais flexíveis e abrangentes. Uma sala que possui multi-funções durante o dia, pode proporcionar maior aproveitamento no trabalho remoto. Um tapete que pode ser facilmente retirado, o sofá deslocado e qualquer obstáculo recolhido, cria um espaço de aproveitamento para atividade física. Ou até mesmo um novo cenário para as recorrentes chamadas de vídeo .

Não somente as configurações de paredes e mobiliário nos afeta, mas as cores e formas que nos cercam, podem ajudar ou dificultar algumas atividades e transmitir sensações diferentes. Um espaço com pé direito muito alto que não seja amplo pode proporcionar sensação de aprisionamento. Criar uma pintura escura no teto e em faixa na parte alta da parede pode criar um acolhimento neste mesmo espaço. A intensidade dos pigmentos aos nossos olhos pode influenciar em nosso humor, contribuindo para tranquilidade ou irritabilidade. Os tons de cores mais quentes podem nos estimular e criar uma atmosfera de energia intensa. Já as cores mais frias e neutras tendem a transmitir tranquilidade e quietude. Imaginar essa composição de estímulos e relaxamento na vivência intensa de poucos ambientes pode ajudar ou dificultar as diferentes atividades no período de reclusão. 

Há 7 meses não imaginávamos nada parecido com o que vivemos este ano. Estamos lidando com o desconhecido e tendo que nos adaptar a novas formas de viver e a arquitetura pode ser uma aliada nesse momento, nos ajudando a moldar os espaços e, assim, nos habituar a essa realidade híbrida que ganha contornos cada vez mais claros.

*Líder de arquitetura da Yuca

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