Fato deprimente e comprometedor

Opinião / 10/08/2019 - 06h00

Aristoteles Atheniense

A recusa de Jair Bolsonaro em receber o chanceler francês Jean-Yves Le Drian no Palácio do Planalto, tendo como pretexto a falta de espaço em sua agenda, em 29 de julho passado, repercutiu desfavoravelmente na França, onde o ministro é considerado um dos auxiliares mais prestigiados pelo presidente Emmanuel Macron.

A frustração do encontro gerou irritação, mormente em face da versão oficial do nosso mandatário, ao mesmo tempo em que exaltava os motivos que concorreram para a rusga criada com o presidente da OAB.

Em maio passado, Macron recebeu o famoso Raoni em audiência em que o cacique ressaltou o desmatamento da Amazônia, divulgando o fato que vem sendo alvo de constantes manifestações na área ambiental. 

Em sua vinda ao Brasil, Le Drian incluiu em sua agenda um encontro com adversários de Bolsonaro, que o censuraram pela sua omissão quanto à atividade predatória.

O chanceler Ernesto Araújo prometeu ao seu colega francês a criação de um grupo de trabalho para monitoramento dos parâmetros ambientais assentados no Acordo de Paris. Bolsonaro já desdenhara daquele documento, embora aceitasse a permanência do nosso país no ajuste apenas para não prejudicar os negócios em curso, especialmente, o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia.

Após o desapreço revelado por Bolsonaro ao representante da França, este foi recebido pelo governador João Doria, que lhe dispensou toda a atenção. Conversaram em francês sobre os motivos que concorreram para a vinda do diplomata ao Brasil, iniciando entendimentos que compreenderam desestatização, saneamento, setor ferroviário e aeroportos regionais.

Segundo um experiente negociador internacional, o desencontro havido entre Bolsonaro e Le Drian, mesmo não atravancando as negociações mantidas com a União Europeia, não deixa de ser um fato grave. 

Vale ressaltar que, numa reviravolta inesperada, Macron irá receber um dos seus maiores desafetos, Vladimir Putin, antes do encontro do G7 em Biarritz, marcado para o dia 28 de agosto. 

Jean-Yves Le Drian é tido como superministro do atual governo, sendo certo que o tratamento descortês recebido de Bolsonaro, cancelando o encontro bilateral na última hora, tornou-se inaceitável. Logo depois, apareceu numa live cortando o cabelo, ensejando que o chanceler, numa entrevista à imprensa internacional, dissesse que foi preterido devido a uma “urgência capilar” do nosso presidente.

O episódio, certamente, será lembrado como um dos momentos mais ridículos da história da diplomacia brasileira.

Advogado, conselheiro nato da OAB e diretor do IAB

 

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