Feliz por não ser ninguém

Opinião / 13/03/2021 - 06h00

Mauro Condé*

“Jamais sofri mágoa que uma hora de leitura não tenha curado” - Montesquieu
Acabo de voltar de uma viagem rumo ao conhecimento, usando como meio de transporte excelentes livros da literatura brasileira.

Eles me levaram para Copacabana, no Rio de Janeiro do ano de 1989, onde fui recebido por Rubem Braga, a quem fui logo pedindo:

Ensina-me algo que eu ainda não saiba e tenha o poder de mudar a minha vida para melhor.

-Leia de forma compulsiva. Quanto mais você lê menos problemas na vida você vê.

Rubem Braga entrou para a história ao transformar a Crônica num dos gêneros literários mais apreciados pelos brasileiros em meados do século passado.

Na contramão da imprensa que dependia de grandes fatos para transformar em manchetes, ele passou a ganhar notoriedade publicando, no cantinho dos jornais, crônicas deliciosas sobre as coisas mais banais e simples da vida.
Rubem se especializou na arte de escrever textos com prazo de validade um dia, substituíveis pelos do dia seguinte, porém capazes de permanecer na memória para sempre.

Entre suas grandes obras, achei outro dia a crônica “O Padeiro” cujo trecho memorável reproduzo abaixo:
“Enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente.

Quando vinha deixar o pão e o jornal do dia à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando:

— Não é ninguém, é o padeiro!

Interroguei-o uma vez: como tivera a ideia de gritar aquilo?

“Então você não é ninguém?”

Ele abriu um sorriso largo.

Explicou que aprendera aquilo de ouvido.

Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: “não é ninguém, não senhora, é o padeiro”.

Assim ficara sabendo que não era ninguém…

Eu, me julgava importante porque no jornal que levava para casa, ia uma crônica ou artigo com o meu nome.

O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos alegre; “não é ninguém, é o padeiro!”

E assobiava pelas escadas.”

Para tempos difíceis, recomendo para pessoas que amo a leitura do clássico “200 Crônicas Escolhidas” de Rubem Braga, dentro dele palavras que são pílulas para o tédio e a monotonia.

*Palestrante, Consultor e Fundador do Blog do Maluco.

 

 

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