Futebol de várzea como instrumento social

Opinião / 14/02/2020 - 06h00

Fábio César Marcelino

Antes mesmo de seu prestigiado futebol profissional e grandiosos estádios, o Brasil já possuía um grande contingente de campos de terra batida, próximos às margens dos rios, ou seja, as várzeas, com jogadores amadores num futebol de várzea como lazer de fim de semana, ponte para o futebol profissional ou uma ação para prevenir a marginalidade. Mesmo que muitos campos desapareçam com a urbanização, o futebol de várzea ainda prevalece nos bairros e comunidades periféricas como essencial ferramenta de sociabilidade e opção para muitos jovens que sonham em voar mais alto, jogando em times profissionais ou, até mesmo, atuando como árbitros.

Um campo de futebol de várzea também é palco de grandes partidas, momentos de alegria, espaço de integração e, quem sabe até, celeiro de grandes atletas. A forma mais popular de lazer está na várzea, um acontecimento comunitário movimentando campeonatos independentes, sendo alguns times com quase cem anos de tradição.

E é nesses campos de futebol de várzea que os árbitros atuam para realizar o sonho de apitar jogos do futebol profissional. São homens e mulheres que, em busca de seus objetivos, se movimentam pelas cidades. Eles e elas conduzem os jogos, intermediando as paixões de outros atores vinculados a essa prática esportiva e cultural.

Em Belo Horizonte e região metropolitana, muitos árbitros que sonham em apitar partidas profissionais vivem em situações de pressão, ausência de estrutura, violência física e psicológica que, muitas vezes, estimulam o abandono da carreira. Muitos não são da capital e precisam viajar semanalmente para trabalhar, enquanto outros se mudam e sacrificam a convivência com a família em busca de sustento.

As mulheres compõem cada vez mais o quadro de arbitragem e desejam um dia ter mais espaço em campo e ser mais respeitadas como verdadeiras entendedoras de futebol. Tive o prazer de conhecer muitas delas, observar a força e a coragem que enfrentam toda semana em um espaço predominantemente masculino.

Entretanto, todas sempre se mantiveram com as cabeças erguidas e focadas em um só sonho: apitar uma partida profissional.

Produzir um documentário foi a forma que encontrei para conhecer melhor a vida desses profissionais e mostrar histórias motivadoras e inspiradoras, para entender mais profundamente o que os árbitros passam e o que vivem para alcançar seus objetivos. “Na marca da cal” foi o título escolhido para representar situação tensa e de tomada de decisão em que os árbitros no futebol de várzea têm que marcar o campo com a cal na hora do pênalti.

Muitos são os momentos tensos de pressão e de violência. Entretanto, ainda que com todas as adversidades, o futebol de várzea se mantém como peça essencial no cotidiano de muitas pessoas, agregando famílias e mantendo vivas muitas comunidades. Ser árbitro de futebol de várzea envolve paixão pelo esporte e resistência.

Autor do documentário “Na marca da cal”

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