Gestão de riscos no caso Brumadinho

Opinião / 27/07/2019 - 06h00

Rodrigo Fontenelle

Brumadinho-MG, 25 de janeiro de 2019. Às 12h28min, Minas, o Brasil e o mundo são surpreendidos, novamente, por um rompimento de barragem de rejeitos de minério com impactos humanos e ambientais estratosféricos. No meio da contagem de vítimas e da mensuração do dano causado por mais esse desastre, é inevitável que se comece a especular o que deu errado e o que de diferente poderia ter sido feito para que essa catástrofe tivesse sido evitada. Nesse ponto, é senso comum o entendimento de que houve falhas na gestão de riscos por parte da empresa Vale, proprietária da barragem e responsável por prevenir o rompimento.

Por óbvio, ninguém contesta que estamos diante de um caso de insucesso da gestão de riscos a cargo da empresa. Entretanto, o que proponho nesse artigo é enxergarmos o tema por uma outra perspectiva, qual seja, a das corporações responsáveis por toda a operação de resgate e atendimento às famílias atingidas (Corpo de Bombeiros, Polícia Militar, Defesa Civil e Polícia Civil). Acredito que tenha impressionado a todos a rapidez com que essas corporações entraram em ação e isso é explicado por uma adequada gestão de riscos.

Risco é um evento futuro e incerto que, em se concretizando, traz impactos negativos. Em linhas gerais, a gestão de riscos é formada pelo tripé causa – evento de riscos – efeito. 

Partindo da premissa que o evento de riscos que se concretizou é o rompimento da barragem, se pensarmos pelo prisma da empresa, é claro que ela poderia ter atuado de forma preventiva, ou seja, eliminando (ou pelo menos reduzindo drasticamente) as causas de um possível desastre como esse. Mas, e se olharmos pela ótica das corporações?

Como é de se imaginar, nenhuma delas é responsável pela fiscalização, manutenção ou operação da barragem. Nesse sentido, não cabe a elas pensarem em qualquer ação para mitigação do risco de rompimento da uma estrutura como a que se rompeu. Entretanto, o que pretendo explorar aqui é que essas corporações fizeram o dever de casa. Elas fizeram a gestão de riscos que estava ao alcance delas, qual seja, se preparar para o pior, caso ele acontecesse. Tecnicamente, atuaram na parte do trinômio que podia, que seria a mitigação dos efeitos do desastre.

Citemos alguns fatos interessantes sobre essa operação. O gabinete de crise foi montado em menos de quatro horas, quando o protocolo internacional de resposta entende que seria aceitável até 48 horas. Mais de 50 agências (órgãos, entidades, empresas, etc.) atuaram no local, número esse superior inclusive ao observado no atentado ao World Trade Center, em 2001.

Em alguns dias, o campo improvisado de helicópteros, em Brumadinho, recebeu mais pousos e decolagens que o Aeroporto Internacional de Belo Horizonte. Foram quase 2 mil bombeiros, inclusive, de diversos outros estados (e até mesmo de Israel), mais de 20 equipes de cães farejadores, mais de 130 máquinas utilizadas no resgate, dentre diversos outros números, e tudo isso sem nenhum acidente com os profissionais envolvidos ou mesmo com os animais. 

Como é possível? Gestão de riscos! A partir de treinamentos como o Curso de Salvamento em Soterramentos, Enchentes e Inundações (CSSEI) e de um Sistema de Comando de Operações (SCO), dentre outros, todos sabiam o que tinha que ser feito quando o rompimento aconteceu. Não teve pânico. Teve capacitação prévia. Teve capacidade de resposta. Teve organização. Teve cooperação. 

Sim. Esse artigo pode ser entendido como uma homenagem a essas corporações por todo o trabalho realizado até aqui, mas também serve para ratificarmos a relevância desse importante instrumento de melhoria da governança chamado gestão de riscos. 

Controlador-geral do Estado de Minas Gerais

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