Gestação segura para portadores de HIV

Opinião / 22/12/2020 - 06h00

Cláudia Navarro*
 

Dezembro é dedicado à conscientização e luta contra a infecção pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV). Doença crônica, tratável, mas ainda sem cura. Dados do Ministério da Saúde (MS) mostram que mais de 900 mil pessoas no Brasil são portadoras de HIV, com maior número de casos em jovens entre 25 e 39 anos, de ambos os sexos. Essa faixa etária coincide com a idade fértil feminina e a alta taxa de sobrevivência dessas pessoas permite o desejo e a possibilidade de uma maternidade segura.

Segundo a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva - ASRM, um terço das mulheres em idade fértil diagnosticadas com HIV querem ser mães. Entretanto, quando um ou ambos os parceiros possuem o vírus do HIV, isso se torna uma preocupação. Tanto pelo medo da infertilidade quanto pelo receio da transmissão vertical do vírus (mãe para filho dentro do útero).

Entretanto, é possível que um casal soropositivo (ambos portadores) ou sorodiscordante (apenas um) tenha filhos por meio da Reprodução Assistida (RA). E, principalmente, que o bebê nasça sem a presença do HIV.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida - SBRA, o primeiro passo é ter a liberação da equipe médica que acompanha o paciente (infectologista, ginecologista, urologista e especialista em RA), confirmando que ele está com a carga viral indetectável ou muito baixa.
A técnica vai depender de qual parceiro é portador: quando apenas a paciente é portadora, a inseminação intra uterina (IIU) é a principal. Como o parceiro não possui o vírus, ela impede que ele seja contaminado. Como esses casais geralmente não são inférteis, a chance de gravidez é alta.

Quando ambos têm a infecção, a IIU impede que diferentes sorotipos do vírus sejam transferidos entre os parceiros. Quando a qualidade do sêmen não for adequada, a mais indicada é a Fertilização In Vitro (FIV).

Quando apenas o homem é infectado ou os dois parceiros possuem o vírus, classicamente se realiza a FIV com ICSI (injeção intracitoplasmática de espermatozoides). Ou a própria IIU, mas após a “lavagem” seminal: a parte plasmática, que contém leucócitos ou células de defesa e as partículas virais, é separada em laboratório durante o processamento do sêmen.

Isso diminui as chances de encontrar o vírus na amostra e, consequentemente, o risco de transmissão. Depois da “lavagem”, deve ser feita uma pesquisa para confirmar se o material está livre do vírus.

Por fim, após conseguir a gravidez, o próximo passo será o acompanhamento de especialistas e o uso de medicamento antirretroviral específico para a gestante e, depois, também para o recém-nascido. O parto deverá ser via cesariana e a amamentação materna, infelizmente, desconsiderada. Com todos esses cuidados, as chances de transmissão vertical caem para menos de 2%.

*Especialista em Reprodução Assistida, 
Membro do Corpo Clínico do Laboratório de Reprodução Humana do Hospital das Clínicas da UFMG

 

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