HIPEC é novidade contra o câncer de ovário

Opinião / 19/12/2018 - 06h00

 Agnaldo Lopes* 

O câncer de ovário é uma doença silenciosa e de difícil diagnóstico, prejudicando identificar a maioria dos casos em estágio inicial e reduzindo as chances de cura. Cerca de 75% das pacientes doentes são detectadas quando a doença já está disseminada em outros órgãos intra-abdominais. O Instituto Nacional do Câncer (INCA) estima 6.150 novos casos brasileiros de câncer de ovário com um risco estimado de 5,79 casos a cada cem  mil mulheres, até 2019. Mesmo com toda a tecnologia disponível, ainda existe muita dificuldade em encontrar um procedimento capaz de detectar a doença em estágio inicial. As novidades estão sendo estudadas e uma delas é a cirurgia com a utilização de HIPEC (quimioterapia hipertermia intraperitoneal), já considerada um avanço e com benefícios constatados para mudarem a história de muitas mulheres.

HIPEC é um tratamento aplicado, logo após a cirurgia citorredutora (CRS), ou seja, uma cirurgia que visa a remoção de todos os tumores macroscópicos. A seguir, ainda no mesmo procedimento cirúrgico, associa-se a quimioterapia intraperitoneal, por meio de infusão de agentes quimioterápicos a uma temperatura ao redor de 42ºC no interior da cavidade abdominal. O procedimento se tornou uma opção promissora de tratamento para tumores que, até poucos anos, eram inexoravelmente fatais e não respondiam eficientemente a nenhum tratamento. 

Em comparação a outras técnicas de tratamento, o HIPEC possibilita uma concentração quimioterápica muito maior para atingir as células. O racional dessa terapia é que a maior parte das pacientes com câncer de ovário apresentam recidiva no peritônio, membrana que reveste toa a cavidade peritoneal. Dessa forma, oferecer altas doses de quimioterápico local associado aos efeitos benéficos da hipertermia pode favorecer um melhor controle tumoral.

A  quimio, quando aplicada diretamente no local, possui uma ação muito mais efetiva que se aplicada via endovenosa. Algumas das drogas utilizadas no procedimento HIPEC chegam a apresentar concentrações dez vezes superiores que quando administradas sistemicamente. Outro ponto muito benéfico está na associação à hipertermia (calor), potencializando ainda mais os efeitos. Uma temperatura elevada é citotóxica, ou seja, tóxica para as células comprometidas. Os resultados são apenas alguns dos benefícios que o tratamento HIPEC propicia, sendo o efeito mais significativo.

O tratamento HIPEC pode ser indicado para pacientes diagnosticadas com tumores de disseminação peritoneal, como mesotelioma, pseudomixoma, câncer colorretal, até do câncer de ovário em situações específicas. A quimioterapia hipertérmica intraperitoneal aumenta a sobrevida em câncer de ovário. Um estudo fase III, recentemente publicado pelo New England Journal of Medicine, revelou o papel da adição de quimioterapia intraperitoneal hipertérmica (HIPEC) em mulheres com câncer de ovário estadio III, recém-diagnosticadas. 

Elas receberam HIPEC e apresentaram benefício estatisticamente significativo em sobrevida livre de recorrência.
Em relação aos efeitos adversos, o grupo que recebeu quimioterapia hipertérmica teve maior necessidade de colostomia ou ileostomia e também uma maior taxa de infecção. Entretanto, não se registrou diferença no tempo de internação mediano, bem como na taxa de pessoas que completou os três ciclos de tratamento quimioterápico pós-operatório.

O HIPEC pode ser uma alternativa para mulheres selecionadas com câncer de ovário que serão tratadas em centros com experiência nesse tipo de tratamento.  Atualmente, muitos hospitais no mundo podem oferecer esse procedimento que é muito desafiador e requer paciente cuidadosamente avaliadas por uma equipe multidisciplinar, incluindo um ginecologista oncológico oncologista clínico, intensivistas, anestesiologistas, patologistas, além de enfermagem, fisioterapia e profissionais da nutrição. O câncer de ovário continua sendo um desafio. Esses recentes avanços no tratamento cirúrgico, sistêmico e avaliações genéticas podem vira a mudar a história natural dessa neoplasia.

(*) Ginecologista da Rede Mater Dei e professor da UFMG

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