Homens cuidam menos da saúde física, mental e reprodutiva

Opinião / 15/07/2020 - 06h00

Marco Melo* 

Os homens brasileiros são pouco preocupados com o autocuidado em geral, comportamento que se reflete na saúde física e mental. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) aponta que, a cada três mortes de adultos no Brasil, duas são de homens. Eles vivem sete anos menos que elas, em média e, têm mais doenças do coração, câncer, diabetes, colesterol e pressão arterial mais elevadas. Eles ainda assumem o posto de maiores consumidores de álcool e tabaco, fatores que também contribuem com a infertilidade que, apesar de ser muito associada às mulheres, acomete homens na mesma proporção, cerca de 40%.

A infertilidade masculina é causada por diversos motivos que, quando associados, provocam uma redução considerável no potencial fértil. Geralmente as causas são assintomáticas, dificultando a percepção do problema, cuja descoberta só ocorre após vários meses de tentativa de gestação sem sucesso.

Alguns homens apresentam ausência total de ejaculação. Ainda há aqueles acometidos pela chamada ejaculação retrógrada, condição na qual o esperma vai para dentro da bexiga, quando o normal seria ser ejaculado para o meio externo, por meio da uretra. Em alguns casos, quando o homem percebe dificuldade em ejacular ou não a presencia, medicamentos são recomendados e, em outros, porém, a reprodução assistida é a mais indicada.

Outro agente causador da infertilidade masculina são as obstruções dos canais que transportam os espermatozoides, sendo que existe a obstrução consciente feita por vasectomia. O número desse procedimento ultrapassou 34 mil intervenções, em 2017, conforme dados do Sistema Único de Saúde (SUS). A vasectomia é considerada irreversível e, apesar de existir a cirurgia de reversão, após cinco anos de vasectomia, o processo pode não ter sucesso. O risco aumenta com o tempo, pois a hiperpressão no epidídimo gera fibrose e surgem as obstruções complicadoras da cirurgia.


A condição azoospérmica atinge 1% dos homens que têm líquido seminal, mas, ao realizar o espermograma, nenhum espermatozoide é encontrado e não há obstrução nos canais. Nesses casos, a indicação é uma aspiração ou biópsia dos testículos para localizar espermatozoides no epidídimo, ducto que coleta e armazena os espermas. Encontrando espermatozoides, há a indicação de fertilização in vitro. Na ausência, deve-se recorrer a um banco de sêmen, onde os espermatozoides de um doador serão utilizados para o tratamento da infertilidade.

A anomalia nos espermatozoides é outro fator recorrente, comprometendo a qualidade e a quantidade dos gametas. O problema é detectado pelo espermograma como baixa contagem, pequena mobilidade, ou quantidade de espermatozoides de formato anormal, reduzindo as chances de gravidez. Dependendo do caso, o especialista indica inseminação artificial ou fertilização in vitro, associada ou não a outras tecnologias. Felizmente, o avanço da medicina reprodutiva permite que boa parte das causas seja resolvida com tratamentos específicos.

A infertilidade não é a mesma coisa que esterilidade, ou seja, essa última é a incapacidade definitiva de engravidar a parceira e, atualmente, existem várias as formas de se chegar a uma gravidez. Mesmo quando o sêmen não é adequado, ainda assim, é possível fazer um procedimento médico para injetar o espermatozoide diretamente no óvulo em laboratório. Os homens devem cuidar mais da saúde, consultando regularmente especialistas e evitando hábitos inadequados que interfiram na saúde e fertilidade. Afinal, ter consciência dos próprios atos e saber sobre os males que o descuido provoca é essencial para a saúde física, mental e reprodutiva.

* Médico especialista em reprodução assistida

 

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