Leno Maycon e Nego do Borel: o médico e o monstro

Opinião / 08/10/2021 - 06h00

Homero Gottardello*

Leno Maycon Viana Gomes, conhecido como Nego do Borel, é o mais acabado exemplo da estroinice que tomou conta das questões de gênero e raça, no Brasil. O cantor, nascido e criado em uma favela carioca, é visto por seus seguidores nas redes sociais como exemplo de alguém que, a partir da cultura de gueto, conquistou não só seu espaço no meio musical, como uma boa condição financeira. Para seus fãs, é um sujeito que venceu na vida, mantendo os valores de sua origem. Para a classe média, que – sabe-se lá por quê – serve-se de suas composições como trilha sonora de festas que emulam os pancadões, Leno Maycon é, apenas e tão somente, um figurante, uma atração extravagante, um artista que, se vivêssemos no século 19, estaria em um circo de horrores – seu “alter ego” mais perfeito é JoJo Todynho.

Fato é que a idolatria dos pobres e a complacência da mediocracia, somadas à projeção que a indústria do entretenimento lhe deu, criaram um Nego do Borel que, se de um lado evidencia o berço humilde, de outro se avulta como um cidadão sem limites, alguém que desconhece ou, simplesmente, desacredita o ordenamento legal que pauta a vida de toda a sociedade – compulsoriamente, inclusive. Então, tem-se que estamos diante de uma performance real do clássico “Dr. Jekyll and Mr. Hyde”, do escritor escocês Robert Louis Stevenson, em que Leno Maycon é o “médico” e Nego do Borel, o “monstro”.

O problema da realidade é que, enquanto na literatura, Dr. Jekyll domina as ações, sendo comutado para Mr. Hyde apenas em situações pontuais, quanto toma uma poção mágica, Leno Maycon parece ter sido completamente capturado por Nego do Borel. Assim, o sujeito de origem pobre encontra uma princesa disposta a tudo para assumi-lo, mas prefere abusá-la; surge outra ex-namorada que o acusa da mesma violência; as polêmicas se sucedem; sua gravadora o dispensa, seu produtor o abandona e seu público mingua; contratos são cancelados e o funkeiro é expulso do “reality show” que seria, para qualquer um com o mínimo de bom senso, sua chance de reabilitação.
 

A sociedade do espetáculo, que içou um favelado ao status de celebridade, agora precisa soltá-lo das alturas para vê-lo espatifar no chão

Mas o drama ainda aguarda sua cena final e o desaparecimento do cantor, na última segunda-feira, faz todos anteverem um “grand finale”. Leno Maycon, que ameaçara suicidar há pouco mais de uma semana, deixa uma carta de despedida, dá um último telefonema para irmã e some. A sociedade do espetáculo, que içou um favelado ao status de celebridade, agora precisa soltá-lo das alturas para vê-lo espatifar no chão. O racismo evidente, que se constata pelo destaque que é dado a todas as acusações imputadas ao funkeiro, não é páreo para a questão de gênero. Ninguém tem coragem de assumir, mas há uma certa satisfação, um gozo social quando o negro que se destaca é martelado na cabeça, como um prego.


Nego do Borel, agora, tem que voltar para a pobreza, mas não sem antes passar pelas instâncias judiciais que, rapidamente, irão drenar tudo – patrimônio e dinheiro – o que ele conseguiu juntar. “Ele teve sua chance, mas não soube valorizá-la”, dirão uns. “Ele precisa servir de exemplo para os outros que virão”, defenderão outros. O cantor será, sim, fustigado exemplarmente para fazer toda uma geração de jovens das periferias entenderem que esse negócio de bater na namorada, de desancar os empresários, ter arma, dinheiro no cofre de casa e falar as bobagens que pensa é para brancos!

Leno Maycon já deve ter percebido que, na verdade, caiu em uma arapuca. Caiu como um patinho na armadilha da fama fácil e vai voltar a ser pobre, enquanto todos os que orbitaram seu sucesso efêmero seguirão ricos. Aliás, voltar a ser Leno Maycon é sua única salvação, na medida em que Nego do Borel já se tornou uma espécie de inimigo público. A única salvação que existia para Nego do Borel era, mesmo, ter suicidado – é que, depois de uma morte violenta, midiática, estúpida, as coisas acabam se resolvendo pela consternação; vide MC Kevin.
 

Ninguém tem coragem de assumir, mas há uma certa satisfação, um gozo social quando o negro que se destaca é martelado na cabeça, como um prego

Mas depois dessa, de ele ser encontrado em um motel com duas, cinco ou dez mulheres (o número tanto faz), com nenhuma que seja, não há socorro moral para sua impostura. O sujeito prometeu se matar, fez todo tipo de ódio salivar, criou uma expectativa raivosa nos enfurecidos, despertou a ira do preconceito ao mesmo tempo em que aguçou a sanha dos que posam de defensores das minorias. Acordou o que há de pior entre os bons e os ruins. Desapontou a todos na medida em que, ao reaparecer cheio de marra, insultando a imprensa, justificou o sumiço se dizendo “deprimido” – e é mais do que sabido que depressão é doença de rico, de branco.

Vivo, decepcionou gregos e troianos. Seguirá atormentado, flagelado, supliciado pelo “subjornalismo” dos youtubers, dos blogueiros, da revista “Quem”, do “O Fuxico”. Morto, Nego do Borel se transfiguraria em Leno Maycon e – quem sabe? – teria paz, da mesma forma que o monstro Mr. Hyde, desfalecido, retomou a forma do médico Dr. Jekyll.

*Jornalista e advogado

 

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