Mães na pandemia

Opinião / 08/05/2021 - 06h00

 

Simone Las Casas*

A sensação é de estar equilibrando mil pratos de uma só vez. O dia começa e não sei o que faço primeiro. Se realizo algo por mim – uma rotina de autocuidado ou prática de yoga – ou se amamento a minha filha mais nova. Se brinco com o meu filho mais velho que já está acordado desde as 6h da manhã, olho o WhatsApp para ver mensagens importantes ou se já respondo aquele e-mail de trabalho que ficou para trás e não saiu da minha cabeça.

Ainda cambaleando de sono, faço quase tudo isso simultaneamente, sem me concentrar muito bem em nenhuma das tarefas, como se estivesse apenas cumprindo o obrigatório. A cabeça está sempre cheia e ainda fica aquela sensação de estar "devendo" algo não ficou bem-feito.

A sobrecarga das tarefas da casa que recai sobre nós, mulheres, é imensa. Pensar na organização das rotinas, fazer as listas de supermercado e farmácia, manter os cuidados diários com os filhos, estruturar a logística de ajudantes – quando existem – e muitas outras coisas, tira a maioria das mulheres do sério. Associe a isso a carga emocional inerente às mães, uma pandemia sem precedentes, as responsabilidades do trabalho e pronto! Estamos à beira de um ataque. Não é à toa que, de acordo com uma pesquisa realizada pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, 63% das mães participantes apresentaram sintomas de depressão no último ano.

O trabalho fora de casa era uma maneira de nos desafogar, um momento de respiro, uma pausa no dia a dia com os filhos que às vezes pode ser bem desgastante. Além disso, a produtividade e o resultado esperado eram muito melhores quando nos deslocávamos para a empresa ou escritório. Os filhos pequenos não entendem e não respeitam o novo esquema home office. "Se minha mãe está em casa, eu posso acessá-la o tempo todo". Por aqui, Yuri fica pulando em cima de mim enquanto faço reuniões importantes e muitas vezes não há o que se fazer.

Faço parte de alguns grupos de mães e é unânime. Todas reclamam da rotina corrida e muitas revelam que precisam ficar até de madrugada trabalhando para compensar as horas de baixa produtividade. Isso, claro, quando as suas condições laborais permitem que as mesmas trabalhem de casa.

Outras mulheres, quando podem, decidem trabalhar de dentro de seus carros para conseguir entrar em contato com seus chefes, clientes, colegas de trabalho e etc.. Não há descanso nem pausa para o almoço ou cafezinho. As funções absorvem estas mães 24 horas por dia e acabam resultando em um esgotamento total. De acordo com uma pesquisa feita no Reino Unido, 1 a cada 3 mães chegou no limite do estresse durante a pandemia.

Exatamente por isso procuro incluir várias práticas de autocuidado no meu dia a dia, na medida do possível. Tento não sair do quarto antes de praticar 10 minutos de respiração e meditação. Pratico atividades físicas e yoga pelo menos 4 vezes na semana. Tenho uma rotina flexível com práticas de limpeza e relaxamento, como massagens com óleos, aromaterapia, escalda pés e relaxamentos guiados. Enquanto os meus filhos dormem ou quando tenho uma folga no trabalho, ouço cursos sobre bem-estar e autoconhecimento, disciplina positiva, etc... Faço o possível para cuidar da minha criança interior, que também precisa de atenção.

Este contexto está sendo uma boa oportunidade de crescimento pessoal para muitas mães. É quase impossível não recorrer a ajuda, seja ela profissional ou da família. A rede de apoio que teoricamente deveria estar ainda mais forte, não é realidade para muitas, que têm medo do contágio pelo vírus. Algumas choram caladas, descontam nos seus filhos. Outras conseguem flexibilizar e abrir mão de algumas coisas para conseguir sobreviver neste caos. Mas todas, sem exceção, estão vivendo um desafio inevitável e sairão mais fortes desta experiência. 

* Diretora de marketing de empresa de revestimentos sustentáveis Ecogranito

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