Mais de 5 mil Brasis: os desafios dos novos gestores municipais

Opinião / 17/12/2020 - 06h00

Ricardo Ramos*

m dos maiores benefícios que percebo como empreendedor social trabalhando para o desenvolvimento de municípios é poder conhecer melhor o Brasil. Nessa rotina de viagens, reuniões e contatos com gestores públicos de todas regiões, um dos pontos que mais me atrai é a diversidade que temos em nosso país. Estamos acostumados a vivenciar a variedade existente na culinária, nas expressões verbais, nas tradições e nas várias manifestações individuais de cada pessoa. Porém, as características de cada município são muito diversas. Estas podem ser observadas através dos aspectos sociais, ambientais, climáticos e demográficos - entre outros - distribuídos ao longo de nosso país. Com um território de proporções continentais recortado em 5.570 municípios, existem muitas variações entre esses municípios, o que torna a tarefa de oferecer políticas públicas de qualidade ainda mais desafiadora para os gestores públicos.

A diversidade pode e deve ser conhecida para que todos tenhamos uma melhor compreensão de nossa nação e dos desafios existentes na gestão pública. Isso significa que não podemos fechar os olhos para o fato de que, para uma capital como São Paulo (SP) e seus mais de 12 milhões de habitantes, temos milhares de municípios como São Paulo do Potengi (RN), com menos de 18 mil habitantes. Inclusive, a metade dos brasileiros que hoje vive em municípios de menos de 150 mil habitantes tem os mesmos direitos que os cidadãos das maiores cidades - e os gestores públicos municipais, as mesmas responsabilidades.

Os desafios da educação e da mobilidade
Não podemos omitir que os desafios de oferecer educação de qualidade em Salvador, na Bahia, com praticamente 100% da população vivendo em área urbana, são muito diferentes das centenas de municípios como Salvador do Sul (RS) onde mais da metade da população (60%) vive em zonas rurais. É preciso compreender que oferecer serviços de mobilidade urbana em uma cidade desenvolvida como Campinas (SP), com sua área de 794 quilômetros quadrados, não é igual a disponibilizar nos 3.650 quilômetros quadrados da grande Campina Verde (MG) ou da pequena Campina do Monte Alegre (SP) com apenas 185 quilômetros quadrados.
 

A complexidade das políticas públicas locais
Quando observamos a população vivendo nesses municípios também identificamos diferenças que devem refletir diretamente nas políticas públicas locais. Se por um lado há de se planejar o sistema de saúde para uma Porto Alegre (RS) onde, em 2010, 10,5% da população tinha mais de 65 anos, por outro os gestores têm que oferecer um sistema de saúde eficiente para os cidadãos de Porto Alegre do Norte (MT), onde apenas 5,7% tinha idade superior a 65 anos em 2010. A segurança também é impactada pela variedade demográfica presente nos municípios. Afinal, quando pensamos na proporção entre homens e mulheres, coexistem em nosso país a Belém (PA) com 54% dos residentes de mulheres e a Nova Belém (MG), que inverte essa distribuição e tem apenas 46% da população de mulheres.
 

Diversidade e singularidades aumentam os desafios
A diversidade se torna ainda maior quando somamos as diferenças dos vários fatores citados, temos então um demonstrativo do nível de singularidade de cada município. Portanto, há de se reconhecer a complexidade do trabalho exercido por nossos gestores públicos, sem, de forma alguma, permitirmos que isso seja utilizado como desculpa pela má qualidade dos serviços públicos que temos hoje. A importância de conhecermos essa realidade, principalmente para aqueles que, como eu, estão fora do setor público, é justamente permitir que possamos ponderar melhor sobre quem queremos que esteja nos representando e o que cada um de nós pode fazer para contribuir com esse desafio, que no fim é de todos brasileiros.

*Especialista em gestão pública e cofundador da Gove

 

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