Matriarcas mineiras

Opinião / 18/06/2019 - 06h00

Aristóteles Drummond

Parece que saiu de moda se falar da Tradicional Família Mineira (TFM). Parece que ela já não existe mais, por novas gerações terem se casado fora daquele pequeno grupo que reunia as famílias mais antigas, geralmente austeras, conservadoras e rigorosas na educação dos filhos.

Em toda Minas, entretanto, resistem exemplos de famílias que cultivam as tradições e possuem ainda exemplos vivos das grandes mineiras do passado. Muitas, inclusive, assumindo a liderança de famílias na ausência de seus maridos. Numa mesa tradicional que reúne, no final das tardes, gente de excelente memória e boa conversa, em BH, no restaurante de Edmundo Lanna, falou-se destas figuras que ainda iluminam a vida de filhos, noras, netos e bisnetos, com vigor e exemplos marcantes.

Para ficar naquelas que atravessaram os 90 anos, algumas próximas do centenário, lembrou-se de notáveis como a mãe do anfitrião, Pichita Lanna, uma legenda viva de carisma. E ainda ativa e trabalhando aos 95 anos, tendo três de seus filhos seguindo sua atividade, voltada para a melhor gastronomia. Ela mesma herdou os ensinamentos da mãe, nos quais acrescentou a cozinha italiana do pai. Uma das filhas, Mazzô, é líder em São Paulo nos serviços de buffet para casamentos, grandes eventos e sofisticados jantares. Tudo aprendido, ainda menina, com a mãe.

Logo se passou a Judith Mares Guia, centenária, que marca sua liderança familiar pelo amor à música, que conhece e pratica ao piano, à literatura e à gastronomia, que alegram os almoços de família. Filhos, netos e bisnetos, que venceram, servem a Minas e ao Brasil, dentro do que aprendeu em Santa Bárbara, onde seu pai chefiava a família Pinto Coelho.

Há mais exemplos, como Ana Amélia Faria, pilar das Amigas da Cultura, que formou filhas e filhos que se tornaram referência na geração, pela elegância no ser e viver, na formação de filhos e netos. Uma bisavó presente. Luci Guimarães Berenguer, aos 95, assumiu a fábrica de tecidos Ferreira Guimarães, com a morte do marido, e a manteve funcionando anos e anos, enfrentando bravamente aguda crise no setor e no país. Uma exemplar herdeira desta família ilustre, que faz parte da história das empresas mineiras, da indústria e do mundo financeiro.

Na região central, D. Leopoldina, mãe do prefeito de Curvelo, e de mais sete filhos, é outro exemplo. Aos 90 anos, ainda é voluntária na Basílica de São Geraldo, que recebe peregrinos de todo o mundo, por ser a única existente dedicada ao santo. 

Talvez, a vida mais intensa tenha sido a de Marina Andrada Ibrahim, notável memorialista com livros de exaltação ao que de melhor existia na gente mineira de seu tempo, a começar pelo pai, José Bonifácio, e o tio Antonio Carlos. Até hoje, quase aos 100 anos, ainda vai a sua querida Barbacena com frequência. 

Enfim, vive em Minas o culto e respeito aqueles que souberam transmitir os valores corretos, protegidos dos desvios pelas montanhas que identificam a terra que deu ao Brasil, desde Joaquina de Pompéu e Bárbara Heliodora a Marília de Dirceu e Ester Franzen de Lima, grandes exemplos.

Jornalista e escritor

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Comentários