Melhor matar a morte

Opinião / 20/12/2018 - 06h00

Ricardo Viveiros*

O assunto suicídio ainda é um tabu, embora tema de série na internet. E está cada vez mais preocupante, em especial entre jovens. Segundo o Mapa da Violência (Sistema de Informação de Mortalidade do Ministério da Saúde), em dados de 2017, a taxa de suicídios na população de 15 a 29 anos no Brasil subiu de 5,1 por 100 mil habitantes em 2002 para 5,6 em 2014, alcançando quase 10% de aumento em 12 anos.

A vida só perde o sentido quando acaba a esperança.

E o que é a esperança? Não é apenas um sentimento, mas, acima de tudo, uma convicção pessoal, uma certeza de que a vida vale a pena.

Não há esperança sem sonhos, projetos, desejos — motivos para existir.

Viver vale a pena porque você não é dono da vida; porque não foi você que se inventou, criou e integrou ao planeta. Você não pertence apenas a si mesmo, é também de outras pessoas, do mundo. Você não sabe o que vai acontecer no futuro; você pode arquitetar o amanhã ao seu jeito.

Cada pessoa é única. Portanto, valiosa como os diamantes e eterna como eles, porque, mesmo depois de sua morte, será lembrada pelo que fez e representou. Enfim, porque viveu. Não porque morreu.
O suicida não é um covarde; é um corajoso desesperançado.


O escritor francês Albert Camus disse que a única questão verdadeiramente séria da filosofia é o suicídio. A rigor, acho que esse é o mais complexo aspecto do mistério de existir. Morrer por suicídio é uma escolha, uma questão íntima. Uma atitude diante do sofrimento. Uma opção definitiva que se contrapõe aos muitos que morrem sem querer, lutando para continuar vivendo.

Há saída para o suicídio?


Sim, há. E só depende de um olhar duplo e, aparentemente, antagônico. Um olhar fechado no ponto mais profundo do seu ser e aberto para todos os pontos do universo. Vontade de criar uma ponte segura entre você e as infinitas possibilidades da vida. Para descobrir sua conexão com alguma delas. E existem.


Se você acha que não serve para viver, tenha certeza de você é importante para a vida de alguém ou, até mesmo, de muitas pessoas.

Há crianças que foram muito desejadas por seus pais e que, em razão do destino, nasceram com sérios problemas físicos e mentais. São seres aparentemente inúteis para a vida, mas, por outro lado, a razão de ser da existência dos que lhes cuidam com amor e carinho. Há pessoas que tentaram o suicídio, não morreram e se tornaram brilhantes personalidades, descobriram curas para doenças, criaram meios para melhorar a vida de todos. Qualquer ser humano pode ser útil, a si mesmo e ao próximo.

“Viver é perigoso”, disse o romancista brasileiro Guimarães Rosa. Por isso mesmo, também é fascinante, mágico, desafiador. Morrer não oferece oportunidade; viver permite chances de mudar qualquer cenário.
Experimentamos tempos difíceis. Cada um tem suas dores. Entretanto, devemos ponderar que é melhor matar a morte do que perder a vida.


(*)Jornalista e escritor. Autor, dentre outros livros, de “A vila que descobriu o Brasil” (Geração Editorial) e “Justiça seja feita” (Sesi-SP Editora).

 

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