Minas deixa legado no combate à pandemia com pulmão artificial

21/12/2021 às 19:52.
Atualizado em 29/12/2021 às 00:35

Dra. Marina Pinheiro Rocha Fantini*

Uma das frases que mais me marcaram na pandemia foi: “Dormi com minha irmã viva e acordei com a notícia de que ela estava quase morrendo”. Todos os dias, um médico escuta palavras que o fazem reavaliar o significado da existência humana e do quanto podemos ajudar pessoas a sorrirem de novo. Você não precisa trabalhar na área de saúde para dar esse apoio. Pode ser gestor de empresas, do governo, o responsável por uma casa, ou, simplesmente, uma pessoa que valoriza a vida. Todos, a seu modo e dentro de suas possibilidades, são capazes de contribuir.

A pandemia evidencia as falhas da nossa saúde nas redes pública e particular, mas também o potencial que temos de trazer soluções. No Brasil, os principais centros de referência estão em São Paulo. Os hospitais da capital paulista dominam rankings nacionais e integram os internacionais de excelência. Nesse cenário, eu e meus colegas da saúde de Minas Gerais começamos o combate à Covid-19, no ano passado, dispostos a superar obstáculos e levar o Estado a um novo patamar no setor.

Minha principal frente de luta foi a Oxigenação por Membrana Extracorpórea (ECMO, na sigla em inglês), também conhecida como “pulmão artificial”. Nessa terapia, um equipamento substitui temporariamente as funções pulmonares, ajudando o corpo a se recuperar de lesões que causem insuficiências respiratórias ou cardiorrespiratórias.

Desde o início, a ECMO se mostrou uma aliada contra os graves problemas provocados pelo vírus. Seu uso cresceu mais de 1.000% em 12 meses no Brasil. Observamos que equipes devidamente preparadas aumentaram sua taxa de sucesso em pacientes com Covid. Em Minas, profissionais formados pelo centro Extracorporeal Life Support Organization (ELSO), que padroniza o uso da ECMO no mundo, tiveram 61% de taxa de sucesso no procedimento, diante dos 42% da média nacional e 49% da mundial, em que nem todos tiveram acesso à mesma formação.

Enquanto a pandemia nos remete à frieza dos números, como profissional de saúde ela me faz lembrar das pessoas que salvamos. Eu vi a mãe de 24 anos que precisou ser intubada duas vezes – e entrou em ECMO outras duas – se ver livre da doença e pegar o filho de menos de um mês de vida nos braços de novo. Acompanhei um paciente oncológico de 14 anos que teve a chance de reencontrar o pai somente após o acesso à terapia. Conheci também uma paciente que, de tanta alegria, agradeceu à equipe de saúde pela recuperação e abraçou o aparelho de ECMO.

Nos centros de pesquisa, nos hospitais, no governo, nas ruas, todos que enfrentam o vírus são responsáveis por essas curas. A luta contra a Covid-19, aliás, conferiu a Minas uma nova projeção na saúde nacional. Um estudo divulgado em outubro pela Imperial College, referência mundial de produção científica em Londres, apontou que mais da metade das mortes pelo vírus no Brasil poderiam ter sido evitadas caso o combate à pandemia em nível nacional tivesse seguido o modelo de BH.

Fomos a primeira capital brasileira a exigir regras de isolamento social e somos a capital do Sudeste com menos mortes por milhão de habitantes. Estamos também entre os primeiros nove estados a vacinar mais de 90% da população com a primeira dose.

No caso da paciente do início do artigo, fizemos mais uma revolução. Uma empresa cedeu equipamentos e remédios e um time de especialistas doou sua dedicação, tornando possível, pela primeira vez na história, realizar a ECMO em um hospital do SUS em Minas. Um ato que venceu a resistência para uso da terapia na rede pública e ajudou a salvar mais uma vida no país.

Cardiologista pediátrica e diretora da ECMO Minas. Professora da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais

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