Moro e a política

Opinião / 10/03/2020 - 06h00

Antônio Álvares da Silva*

O ex-juiz Sérgio Moro é um fenômeno novo na realidade brasileira. Um simples juiz federal do interior paranaense resolveu enfrentar os erros acumulados da administração pública e desafiar a corrupção, um vírus que se tornara permanente sem que ninguém lhe aplicasse o antídoto necessário.
Moro fez isto com sucesso. Percebendo a aceitação popular de sua atitude, a ela se aderiram o Ministério Público e a incansável e pronta ação da Polícia Federal, sem dúvida uma das melhores do mundo.

O resultado foi a abertura de uma nova realidade: os políticos intocáveis foram atingidos em cheio. Abriu-se a tampa do grande bueiro, por onde corria quase invisível toda a sujeira da administração pública e privada. Era preciso que surgisse um salvador que não viria dos escalações superiores, comprometidos com a situação, embora dela não participassem diretamente.

A nação aplaudiu e Moro foi reconhecido. Teve o apoio das ruas, o último e verdadeiro julgamento das democracias. O Brasil mudou de feição e o povo deu resposta a novas perguntas para novos fatos.

É verdade que aconteceram também notas dissonantes. Não é possível viver sem elas. O site The Intercept divulgou fatos que não condizem com a atividade saneadora de Moro e sua equipe. Mas estão longe de comprometer o relevante serviço prestado.

Agora, Moro está em outra encruzilhada. Consta que Bolsonaro prometeu-lhe vaga no STF. Por enquanto ficaria no Ministério da Justiça. O trabalho de Moro no Executivo é de qualidade até agora. Está agindo certo, embora tenha de usar armas cujo manejo não lhe é peculiar: as espertezas, maldades e fofocas do Poder. Porém, como salienta recentemente a imprensa, Moro vai se adaptando à nova função e existe a possibilidade de nela permanecer para voos maiores. O futuro é que nos vai dizer a verdade. 

O fato é que Moro já tem até agora um marco inapagável na História do país. Mostrou que é possível com instrumentos democráticos aperfeiçoar a própria democracia. Não é com ameaças, golpes e rupturas institucionais que se corrigem erros, mas com a firmeza e eficácia das ferramentas democráticas. Nenhuma nação no mundo contemporâneo resolveu problemas políticos e sociais fora dos padrões democráticos. O passado já nos deu esta lição. Resta agora aplicá-la ao presente.

Moro não é político, mas tem que adquirir habilidades, bem diferentes das que aprendeu como juiz. Na política não tem meias palavras e os mais fortes e capazes é que convencem o povo com sua atitude. Vê-se claramente sua dificuldade em sorrir sem motivo e ficar junto do povo. Suas declarações são medidas e respeitosas embora precisem ser mais contundentes.

A resposta a Ciro Gomes que o chamou de “capanga” de Bolsonaro mereceria uma resposta forte e adequada para ninguém pensar que é um medroso. Em política é assim: é preciso rir quando na realidade é necessário o choro cívico da inconformidade e da insatisfação de ver tanta coisa errada que não se pode consertar.

Vamos aguardar a revelação dos fatos pelo correr do tempo. Se houver o confronto no voto popular, as pesquisas mostram que o ex-juiz está mais forte do que o próprio presidente. Os interesses colidirão ou haverá chapa única. Ou quem sabe Moro optará pelo retorno aos tribunais como ministro do STF. Só o futuro dirá. Mas um fato é certo: Moro mostrou que um Judiciário forte, corajoso e independente é também um instrumento de mudanças e transformações da realidade social. Por isto a reforma do Judiciário é urgente e inadiável. Exatamente para que o país tenha um novo auxiliar na construção de seu futuro.

*Professor titular da Faculdade de Direito da UFMG

 

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