Não existirá igualdade de gênero sem empreendedorismo feminino

Opinião / 12/09/2020 - 06h00

Itali Collini*

De acordo com o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), se nós conseguíssemos igualar a participação de homens e mulheres no mercado de trabalho da América Latina, o PIB regional aumentaria em 16%. Por outro lado, de acordo com a OIT (Organização Internacional do Trabalho), as mulheres são mais propensas a estarem desempregadas que os homens, na América Latina a taxa de desemprego masculina é de 6,8% enquanto que a feminina é de 9,5%.

Alguns fatores já bastante discutidos na academia, como discriminação, barreiras para conciliar a vida familiar e a falta de perspectiva de crescimento, ajudam a explicar o fato de que as mulheres deixam empresas. De acordo com uma pesquisa da FGV , 48% das mulheres que têm filhos acabam não incluídas apropriadamente no mercado de trabalho e saem dele em até um ano após a volta da licença maternidade, na maior parte das vezes porque são demitidas. Muitas delas estão vendo esse momento como uma oportunidade para empreender.

Já o O GEM - Global Entrepreneurship Monitor - mostra que as mulheres já eram responsáveis por 51,5% dos novos negócios criados no Brasil em 2016. Quando se olha para empresas mais antigas, com mais de 42 meses de existência, os homens representam 57,3% do total. Essa diferença na representação de mulheres em negócios novos e em empresas já estabelecidas aponta que a desigualdade de gênero no empreendedorismo pode não estar relacionada ao senso comum de que mulheres teriam menos ambição em ter uma empresa. Ao contrário, elas são ligeiramente maioria na criação de empresas.

Porém algo acontece no meio do caminho que dificulta seus negócios estarem em pé 3,5 anos depois.

A Kauffman Foundation aponta que cerca de metade das mulheres empreendedoras têm dificuldades em encontrar mentores e isso compromete a rapidez do aprendizado. Em relação a ter caixa para financiar a expansão da empresa, a mesma organização mostra que as mulheres começam negócios com cerca de metade do capital se comparado com homens.

A barreira aumenta quando olhamos para busca por capital de risco, isto é, investimento em estágios iniciais do negócio. No setor de venture capital, que inclui os fundos que investem em startups, a Fortune mostrou que apenas 2,7% do total investido em 2019 foi para empresas lideradas por mulheres. Uma pesquisa publicada pela Harvard Business Review mostrou que as mulheres receberam, em média, apenas 25% do montante requerido, enquanto os homens receberam, em média, 52%. Outra pesquisa publicada pelo mesmo portal mostrou evidências de que há estereótipos de gênero influenciando as perguntas que investidores fazem para mulheres e homens à frente de seus negócios, o que pode gerar respostas muito diferentes, ainda que o potencial de negócio seja parecido.

Os desafios são reais e consistentes, mas a velocidade em que estamos evoluindo na equidade de oportunidade para homens e mulheres ainda é baixa e levariam muitos anos para atingirmos igualdade de gênero. Diversas iniciativas de desenvolveram nos últimos anos para apoiar mulheres, seja no desenvolvimento de carreira corporativa, seja no empreendedorismo. Porém, enquanto olharmos para essas iniciativas como acessórias e filantrópicas não estaremos mirando na raiz do problema: as mulheres são um grupo com menor acesso a desenvolvimento de suas potências e todos perdemos com isso.

A diversidade de gênero é grande influenciadora no desenvolvimento de serviços e produtos, impactando diretamente no potencial de retorno financeiro das empresas. Um estudo publicado pela McKinsey mostrou que empresas com mais diversidade de gênero em cargos executivos têm 21% mais chance de ter lucros acima da média que as que apresentam pouca diversidade.

O empreendedorismo é um caminho que permite construção de independência financeira e desenvolvimento de modelos de negócios pensados e testados por mulheres. Sem oportunidades justas de desenvolvimento para mulheres empreendedoras não atingiremos a igualdade de gênero, e o valor econômico perdido com essa desigualdade impacta toda sociedade.

*Diretora da 500 Startups Brasil
 

 

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