Nesse caso, “super” não é bom

Opinião / 29/07/2020 - 06h00

Débora Brito Goulart*

Normalmente, associamos a palavra “super” a algo bom – super-homem, superalimentos, superpoderes – mas quando de trata de superbactérias, o resultado final não é nada bom. Quando as bactérias se tornam resistentes a diferentes antibióticos, são frequentemente chamadas de superbactérias. No passado, a maioria das superbactérias estava restrita a estabelecimentos de saúde, como hospitais e casas de repouso, onde pacientes em uma condição debilitada eram mais suscetíveis a contrair infecções. Mas recentemente, infecções causadas por superbactérias começaram a aparecer na população em geral, fora dos hospitais.

Como as superbactérias sobrevivem à enxurrada de antibióticos que constantemente disparamos contra elas? O processo ocorre naturalmente ao longo do tempo, geralmente através de mutações genéticas. No entanto, o uso indiscriminados de antimicrobianos está acelerando esse processo. Muitas vezes, os antibióticos são utilizados em excesso ou administrados sem uma supervisão profissional adequada. Exemplos do uso indevido incluem a administração de antibióticos para acelerar o crescimento exacerbado de animais de produção, como frangos de corte, suínos e bovinos ou a ingestão de antibióticos por pessoas que apresentam infecções virais, como gripes e resfriados.

Embora as superbactérias sejam atualmente mais difundidas nos países em desenvolvimento, os países desenvolvidos não estão imunes à ameaça. Em 2016, uma bactéria resistente a todos os antibióticos foi detectada nos Estados Unidos. Uma senhora de 70 anos foi internada com um quadro grave de infecção causada por uma bactéria da família Enterobacteriaceae. Embora a bactéria tenha aparecido nos país anteriormente, esta foi a primeira vez em que o patógeno apresentou resistência a todos os antibióticos disponíveis. Sem outras opções de tratamento, a paciente deteriorou-se rapidamente e faleceu. 

Este tsunami silencioso no qual estamos perdendo nossa capacidade de proteção contra infecções como pneumonia, tuberculose e malária, tem sido negligenciado por muito tempo. Durante anos, microbiologistas alertam para o fato de que o uso indiscriminado de antibióticos em humanos e animais tornam os medicamentos cada vez mais ineficazes. Sem antibióticos adequados para combater bactérias, procedimentos médicos importantes como transplante de órgãos, quimioterapia e tratamento de diabetes terão um altíssimo risco, resultando em enormes implicações para a saúde pública. 

Todos nós desempenhamos um papel crucial na prevenção e no combate às superbactérias. Converse com o seu médico ou com o veterinário do seu animal sobre o melhor tratamento quando você, sua família ou seu animal estiverem doentes. Os antibióticos salvam vidas, mas quando utilizados indevidamente, causam efeitos colaterais e levam ao desenvolvimento das superbactérias. Em um nível individual, podemos garantir que só tomemos antibióticos quando realmente necessário, sigamos todas as instruções médicas corretamente e trabalhemos para manter a nós mesmos e as nossas famílias saudáveis.

*Bacharel em medicina veterinária (UFMG), especialista em ciência animal (Universidade de Minnesota), mestre em ciência dos alimentos (Universidade de Wisconsin) e doutoranda em microbiologia e imunologia (Universidade Estadual de Iowa)

 

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