O ateu que construía igrejas

Opinião / 18/06/2019 - 06h00

Mauro Condé

“Se a reta é o caminho mais curto entre dois pontos, a curva é o que faz o concreto buscar o infinito”.

Acabo de voltar de uma viagem rumo ao conhecimento, usando como meio de transporte excelentes livros sobre Engenharia e Arquitetura.

Eles me levaram para o Rio de Janeiro, no ano de 2012, onde fui recebido por Oscar Niemeyer, o senhor das curvas, a quem fui logo pedindo:
Ensina-me algo que eu ainda não saiba e tenha o poder de mudar a minha vida para melhor.

Cuide-se para viver por mais de um século e para morrer levando alguns minutos de sabedoria na bagagem.

A vida é um sopro, uma agradável viagem que precisa ser desfrutada como um belo passeio.

Faça do seu trabalho a sua arte e use-a para transformar o ordinário em extraordinário e para entrar para a história.

Encare todos os seus medos de frente.

Niemeyer tinha medo do autoritarismo dos militares e tinha ainda mais medo de andar de avião.

Coincidiu que, na primeira vez em que foi a Brasília de avião, acabou se sentando ao lado do Marechal Lott, que lhe perguntou em forma de pressão se o edifício sede, o Quartel General do Exército, seria construído no velho e bom estilo clássico.

Niemeyer respondeu com outra pergunta:
“General, em uma guerra, o que o senhor vai querer usar, arma antiga ou arma moderna?”

Seja inovador 24 horas por dia. Respeite as tradições, mas abrace com força as inovações.

Niemeyer aplicou ao urbanismo as mudanças ocorridas na arte e na literatura, a exemplo do que pregava o movimento modernista da década de 20, contribuindo para o surgimento de uma nova estética mundial.

Ele quebrou o paradigma das construções em linhas retas, alegando que elas tornavam as construções irritantemente iguais, em diferentes lugares do mundo.

Queria inserir traços locais em suas obras e abusou do traço, usando curvas como representação das montanhas do Brasil, do curso sinuoso de seus rios, do desenho das nuvens no céu e das curvas sensuais que lembram a eterna beleza feminina.

Apesar de ser ateu, Oscar Niemeyer projetou e construiu igrejas, capelas e catedrais muito famosas, entre elas a Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha, em Belo Horizonte.

Queria que as novas igrejas fossem diferentes das antigas, que usassem o concreto para que seus frequentadores pudessem ver os espaços infinitos e pudessem procurar a ligação da terra com o céu.

Quando questionado, Niemeyer parodiava Luís Buñuel, dizendo que “Era ateu, graças a Deus”.

Palestrante, Consultor e Fundador do Blog do Maluco.

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