O fim da TV (como a conhecemos). Isso a Globo não mostra!

Opinião / 11/03/2021 - 06h00

Marcelo Sander*

Foi-se o tempo em que aguardávamos a semana inteira para assistir a mais um episódio da nossa série favorita. Foi-se o tempo em que esperávamos chegar a noite para, em família, sintonizarmos no Jornal Nacional para saber o que se passou no Brasil e no mundo nas últimas 24 horas, ao ponto de acreditarmos inocentemente que “se o JN não deu, não aconteceu”. Já foi-se o tempo também em que éramos interrompidos por propagandas entre um bloco e outro do nosso programa favorito. Nossa luta agora é pelos cinco segundos do anúncio antes do vídeo no Youtube.

A popularização da tecnologia streaming vem acabando até mesmo com a TV por assinatura, que no início prometia uma programação sem comerciais mas, aos poucos, também foi se rendendo aos anúncios. A partir do momento em que todos têm smartphones e smarTVs conectados à internet, com alta resolução de imagem, seja de graça pelo Youtube ou por valores módicos por meio de cada vez mais plataformas de streaming, como Netflix, Globoplay, Prime Video, Disney Plus, etc..., a TV como a conhecemos, com programação estática e blocos de anúncios, precisa se reinventar.

As crianças já sabem bem disso. Com a programação infantil na TV aberta limitada apenas ao SBT e à TV Cultura na parte da manhã, os pequenos têm ao alcance das mãos um universo praticamente infinito de entretenimento em celulares, tablets e TVs com acesso à internet, assistindo o que querem, quando querem, sem intervalos comerciais, bastando um clique para pular os famigerados cinco segundos de uma publicidade. Publicidade inclusive que também se reinventa, focando mais no merchandising dentro dos próprios vídeos. Atualmente apenas um nicho, a juventude de hoje será a sociedade de amanhã, moldada nessa nova cultura transmidiática.

Se a crise já abate até a segunda maior emissora de TV do mundo, com a redução de salários e demissão de profissionais, o que dizer das menores? Enquanto Record TV e Band se seguram em poucos programas de maior audiência (notadamente os reality shows) e em venda de espaço para programas religiosos, SBT ainda conta com o carisma de Silvio Santos (tanto na questão da audiência dominical quanto de patrocinadores) que, convenhamos, já é um senhor de 90 anos.

Todas elas foram para o caminho mais fácil: digitalizar sua programação e disponibilizá-la em aplicativos de streaming. A Globo, porém, aposta em seu vasto acervo de novelas e minisséries, em séries gringas que dificilmente teriam vez na TV aberta e em produções próprias e exclusivas para a plataforma. Consegue, assim, ter mais assinantes interessados. A inserção de podcasts de seus principais programas esportivos e jornalísticos também dá um gás na popularização de seu Globoplay, que conta ainda com divulgação cada vez maior nos canais da emissora.

Para além da telinha, a audiência continua nas redes sociais, por meio do envolvimento do telespectador-internauta com publicações referentes aos programas. Basta ver o quanto a edição 21 do Big Brother Brasil é comentada diariamente, o tempo todo, principalmente no Twitter, Facebook e Instagram. Mesmo quem não assina o Pay Per View não precisa esperar a edição noturna para saber o que se passa no programa. Fãs que pagam a assinatura compartilham, praticamente em tempo real, tudo o que é captado pelas câmeras e microfones no reality, reforçando a imagem não só de patrocinadores, mas também as carreiras dos participantes. Foi-se o tempo em que apenas assistíamos a TV. Hoje somos coprodutores do que se passa nela (e fora dela). E isso a Globo não mostra!

*Jornalista, especialista em Marketing, mestrando em Educação Tecnológica, professor de Marketing Digital das Faculdades Promove.
 

 

 

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