O fim do enterro

Opinião / 24/02/2021 - 06h00

Hugo Tanure*

Durante a pandemia de Covid-19 no Brasil, mais de 240 mil pessoas morreram em decorrência do vírus. Infelizmente, os familiares dessas pessoas não puderam velar seus entes queridos e, muito menos, ter um velório tradicional, por conta dos riscos da transmissão do coronavírus. Para quem ficou, resta a saudade e um processo do luto interrompido que, inclusive, pode acarretar em sérios problemas de saúde mental. 

Sem um velório e sem o sepultamento, familiares e amigos encontram grande dificuldade para a elaboração do luto, já que todo esse processo normalmente auxilia no ritual de passagem. Foi, então, preciso buscar alternativas para esses rituais. E ainda considerar a possibilidade da cremação, recomendada pela Anvisa (Agência Nacional de Saúde) como alternativa para o momento atual.

Ao contrário do que muita gente pensa, a cremação é um dos rituais fúnebres mais antigos praticados pela humanidade. Trata-se de uma prática funerária que visa queimar o cadáver até reduzi-lo a cinzas. Por ser considerada uma prática higiênica, fazia parte do cotidiano de diversas populações que sofriam com epidemias de doenças, até então sem cura.

Já é possível observar no Brasil, um aumento de números de crematórios no país ao longo dos anos. Segundo dados do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios do Brasil – SINCEP em 2013 existiam apenas 32 crematórios. Já em 2017 esse número passou para 132 em todo o país. Ainda é um número baixo, se comparado a países como Japão, EUA, Canadá e Colômbia, que possuem mais de 50% dos óbitos cremados.

Hoje, com os avanços tecnológicos, os crematórios tornaram-se mais modernos e ecológicos. Vemos QR Code nas lápides, sistemas de localização com mapas onlines do cemitérios para que a família encontre a localização exata via smartphone, entre outros. No BioParque Brasil, por exemplo, empresa que dirijo, transformamos as cinzas do ente querido em árvores. O resultado, além de marcar o fim dos enterros como normalmente ocorria, oferece a chance para milhares de famílias mudarem a percepção sobre vida e a morte. Permitimos que essas famílias contribuam para a construção de um parque que, no lugar de túmulos,estará repleto de árvores que ainda colaboram para a sustentabilidade da flora e da fauna locais.

Após escolher uma entre sete espécies de árvores nativas regionais em cerimônias especiais, as famílias realizam o plantio de sementes em bioUrnas, isto é, urnas ecológicas biodegradáveis patenteadas pelo BioParque e desenvolvidas na Espanha por designers catalães. Essas urnas são monitoradas de 12 a 24 meses por uma equipe de especialistas no IncubeCenter, uma espécie de viveiro ultra tecnológico. Após esse período, uma nova cerimônia é agendada para o plantio definitivo da árvore no solo do parque em Novas Lima/MG. Toda essa jornada auxilia a família no processo de luto e ainda cria um novo ambiente para cultivar novas memórias. 

Nesse contexto, o Bioparque Memorial & Museu da Cultura, Arte, Meio Ambiente e bem estar social resolve o dilema de muitas famílias, que não sabem o que fazer com as cinzas. Essa iniciativa acaba criando não só uma solução ecológica para o mercado póstumo, mas um processo humanizado que traz leveza e um novo olhar para a morte, ao cultivar a vida.

*CEO da Seven Capital

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Comentários