O futuro do dólar no Brasil

Opinião / 21/12/2019 - 06h00

Carlo Barbieri 

Qual o futuro do dólar? Como economista atuante no mercado americano há mais de 30 anos, posso afirmar que esta é a pergunta que mais recebi ao longo deste tempo. Mais recentemente, devido aos fatos políticos inusitados relacionados ao Supremo Tribunal Federal e à possível ruptura da imparcialidade em temas relevantes para a sociedade, voltou a aumentar o número de brasileiros que nos procuram para buscar informações sobre a confiabilidade no dólar.

Sempre registro algumas considerações com relação ao valor atual do dólar e o que pode variar. Primeiramente, vale destacar que o volume brasileiro de operações cambiais é muito pequeno, ficando sujeitas às influências de fatores como as expectativas de venda das áreas de petróleo da Petrobras e do lançamento de um IPO de empresa em Nova York de pouco mais de U$ 2 bilhões, mais recentemente.

As variações do dólar comercial nesses dois eventos bem demonstram o quão pequeno é o mercado e, em consequência, como ele pode ser afetado por pequenos fatores, que, em nível internacional, seriam periféricos. Em segundo lugar, há fatores reais a considerar: Com a queda da taxa de juros no Brasil, há um forte movimento das empresas brasileiras, ou sediadas no Brasil, de trocarem seu endividamento externo por interno, aproveitando os juros muito baixos no Brasil, o que não acontecia há décadas.

Por outro lado, nossos superávits na balança comercial vêm diminuindo, o que coloca em risco nossas reservas, que têm nele uma forte fonte de obtenção de recursos. Adicionalmente, não está havendo entrada de recursos em forma de investimento, apesar da reforma da Previdência, pois o investidor estrangeiro não sente a segurança jurídica necessária no Brasil. O Brasil caiu muitas posições no ranking de países confiáveis para se investir.

Fatores que os investidores externos podem estar a considerar são: o aparente enfraquecimento do combate à corrupção e a atuação do atual parlamento, que segue, como sempre, mais voltado a interesses particulares do que públicos, permanecendo distante dos interesses da economia brasileira e da sociedade, de modo geral.

Por último, apenas para simplificar, com as taxas de juros atuais, não se torna atraente investir no Brasil em renda predeterminada de 6% ao ano, nas instituições financeiras, quando nos EUA há instituições de grande porte em que se pode conseguir 9% ao ano. É uma diferença bem considerável, aos olhos dos investidores.

Esta foi a razão para a inteligente declaração do ministro Paulo Guedes sobre o câmbio brasileiro, tão mal interpretada pelos “experts”. Seguramente, quem analisa todos esses fatores acima viu na declaração do ministro uma forma clara de tentar atrair investimentos de longo prazo das empresas estrangeiras, que possam instalar parques industriais no país. Que essas empresas sejam atraídas pela possibilidade de terem lucros mais significativos na produção do que possa ser vendidos no mercado externo.

Isso ocorre, justamente, quando as fábricas americanas e de outras nacionalidades, instaladas na China, buscam novos locais para desenvolver sua produção, sabendo que esta “guerra” tem um sentido muito mais estratégico a longo prazo do que uma mera equação da balança comercial americana no curto prazo.

Assim, mesmo considerando as incertezas do Brasil, não se deve esperar que ocorra uma baixa significativa no valor do real frente ao dólar nos próximos meses.

Analista político e economista

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