O sertanejo, a cachorra Baleia e o "filho da égua"

Opinião / 12/09/2020 - 06h00

*Mauro Condé 
“Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões”

Acabo de voltar de uma viagem rumo ao conhecimento, usando como meio de transporte excelentes livros clássicos.

Eles me levaram para Maceió em 1939, onde fui recebido por Graciliano Ramos, a quem fui logo pedindo:

Ensina-me algo que eu ainda não saiba e tenha o poder de mudar a minha vida para melhor.

Preserve o clima, o meio ambiente e a natureza para essa e para as futuras gerações.

Garimpei esse ensinamento extraindo-o da leitura de vários dos seus livros, entre eles o belo “Vidas Secas”.

Ele conta a saga de Fabiano, homem humilde do sertão, sua mulher, seus dois filhos e Baleia, cachorra de estimação e uma fiel e leal guardiã da família.

Desafortunados pela vida, vivem peregrinando como refugiados da seca, fugindo no mundo que nem bicho.

Um dia, enquanto caminha morta de fome, a família dá pela falta de Baleia que, horas depois reaparece, trazendo milagrosamente entre os dentes um enorme preá para alimentar a todos.

Fabiano tenta a vida como vaqueiro, mas acaba explorado de maneira injusta e abusiva pelo patrão.

Sem dinheiro para comer, se desespera e corre para a venda mais próxima e tenta vender alguns porcos que cria em casa.

Porém é impedido de fazer a venda ao se recusar a fazer o pagamento de uma taxa para um cobrador de impostos que fica ali para vigiar toda tentativa de comércio livre.

Fabiano descobre nesse dia ter duas famílias, a sua e o governo.

Procura refúgio na religião e, num domingo depois de deixar a família na igreja, foge para um boteco na tentativa de afogar todas as suas mágoas e ressentimentos na bebida.

Acaba se envolvendo numa aposta com um soldado de farda amarela. 

Ganha a aposta, mas sofre na pele a raiva retaliativa por parte do soldado, que o ofende de forma tão agressiva que ele perde o controle e revida com um grito de “filho da égua”.

Por isso é injustamente preso, humilhado e chicoteado e depois solto.

Numa das passagens mais tristes do livro, Fabiano, com os olhos cheios d´água e remorso é obrigado a sacrificar a cachorra Baleia, que tanto salvara a todos, quando descobre que ela tem uma doença muito grave.

Olha para o alto e, com raiva, vê as aves levantando voo e partindo, sinal de que a seca está de volta.

É convencido pela mulher a fugir novamente daquele inferno em busca de uma vida digna.

E agora, sem a companhia de Baleia, segue as aves rumo ao sul.

* Palestrante, Consultor e Fundador do Blog do Maluco

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